quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Pequenez


O acaso me apanhou tão de surpresa
Que achei que a vida podia ser assim
Um emaranhado no fundo com nós falsos
Uma correnteza violenta na poça d´água
Um tantinho de medo em meio à felicidade
Um quase nada profundo e exuberante
Certezas vastas derrubadas pela rotina.

E, finalmente, achei ter vislumbrado o real.
Tive a impressão de não passar de uma formiga
Lutando contra a força de uma brisa
Contra o peso de uma única gota de orvalho
Carregando um fardo imenso que logo mais não existiria
Deixando como herança a dor nos ombros cansados
E a fome saciada para mim e para os meus.

O súbito resplandecer da razão
Deu voz à loucura vivente no óbvio
Na qual tudo acontece sem mando ou desmando
Mas simplesmente por ter que acontecer
E nós, formigas ciosas, obedecemos sem muito entender
Pois o entendimento não combina com o viver
Desde que o viver se restrinja ao estar vivo.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Antes do Sono

Naquela tarde a inocência ainda movia meus atos
E a generosidade do amor era plena
Vagava a ouvir diálogos ausentes
Da trama aracnídea do futuro planejado.
Tanta alegria era esperada
Que cabia perguntar -para que lágrimas?
Um enxágüe brutal e condescendente
Descartado, então, do meu plano rebuscado.
De nada valia qualquer ponderação:
A perfeição habita o imaginário, apenas,
Tão bem quanto visto minha própria vida
(e não haverei jamais de censurar felicidade).

Então...

A vida se fez de repente presente
Com suas urgências e descaminhos
Medidas, tempos, necessidades, realidades:
A Rainha de Copas decapitou minha tarde.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

E num é?


Firmei os pés no barranco
Escapei por brincadeira
Corro feito Antônio Manco
Na direção da ribeira
Facão eu só trago dois
E esses mesmo levam uns seis
Barriga nem lembra de fome
Nem na vida que deixei
Meus cascos arreganham a terra
Vai ver que nem mesmo sente
Quentura eu sinto no rosto
Mas só fugir é o que vai na mente
Caminho estreito e longo, Deus do Céu!
Dá pena até olhar pra frente
Mas do jeito que a coisa ia...
Melhor fujão que demente
Conceição ficou com os três:
As meninas e o varão
Meu Deus cuide dessa gente
Que pra lá num vou mais não
Cansei de tanta desgraça
De tanto abaixar o toutiço
Homem de barba num guenta
Ser sempre tratado como bicho
Não fugi por liberdade
Nem luxo ou comida ou direito
Eu vou falar a verdade:
Só fugi foi por respeito
E todo mundo não quer?
O patrão, o padre, o prefeito?
Por que só eu que havera
De não ter o tal respeito?
É bem como disse Miguel,
Sujeito de boa receita:
- a verdade é que nem faca
E quem pode não aceita.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

De novo e sempre


Quando acabo de mobiliar meu castelo
Vem esse desejo de derrubá-lo.
E construir - não reconstruir.
O novo, o inédito, o inesperado
O risco, o medo, a superação
Tudo isso move meus pés desconstrutores.

Meu canto ainda precisa ser encontrado
Receio que nunca o ache
Tanto quanto receio um dia achá-lo.
É a busca que me motiva
O reinício, a prova de minha competência
É enxergar um mundo vasto demais para um só castelo.

Desejo de fuçar novos quintais,
Descobrir novas areias e consolidadores
Solidificar pilastras e corrimões e pisos
Encontrar um solo virgem de sujeiras de outros
Plantar minhas próprias fruteiras
E desfrutar toda alegria inerente ao meu próprio suor.

Olhar um terreno vazio e sonhá-lo construído
Com seus labirintos mais profundos
E minotauros ferozes a defender seus caminhos
Pátios ainda livres de multidões e requisições
Nada a pedir, nada a conceder, nada a julgar
Nem o conselho do amigo mais querido. Nada.

Cada castelo criado me renova a esperança
Mesmo sabendo da desconstrução ao final
- Tenho, portanto, tantas mortes quanto renascimentos
De tal modo que a cada castelo desconstruído
E a cada novo castelo imaginado e montado
Acumulo meus mais ricos e preciosos bens.

É o início de uma nova despedida, imagino.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Fruta Ilusão


É como o gosto da laranja podre
entre as delícias do suco:
se destaca e marca
por mais adoçado que o suco seja.

É o bicho na cheirosa goiaba
o ranço do caju
a semente da melancia.
É uma tangerina no topo da árvore.

Tem a semente do mamão macho
o toque do pêssego
a complexidade da pinha
o sabor da manga rosa - passada.

É como se fosse tudo o que a gente quer.
É quente, e queima.
Dá dor de barriga.
Machuca. Agride. Azeda.