
Sei que hoje Woodstock completa quarenta anos, e eu gostaria até de escrever um post sobre o assunto. Talvez amanhã. É que há dias eu estou querendo escrever sobre a famigerada Lei Serrana Anti-Fumo que virou psicose em São Paulo. Não tive tempo nos últimos dias (muito trabalho de verdade: tô quase me sentindo celetista), e uma dor muscular constante nas costas me fez repelir o quanto pude o computador e até as viagens.
Mas...
Simbora.
Por inspiração, cobrança e até plágio do meu amigão Duduzovsky, lá vai o post do anti-fumo.
Há um ano e meio, deixei de fumar. Fumava uma carteira por dia, desde os 15 anos, mas nunca consegui me acostumar com o fedor do cigarro. Nunca gostei de baforada na cara, e muito menos de fumar em local fechado. Apesar de tudo, era fumante convicta e, por conta disso, tinha quase vinte quilos a menos. Tudo bem.
Larguei o cigarro bem no comecinho da fase "cigarro é trash". Larguei porque acordei numa madrugada desesperada para fumar. Nunca tinha me acontecido, e achei que era hora de dar um basta. Até porque aqui é frio pra caramba, longe de qualquer lugar onde se possa comprar cigarros, e eu detesto acordar de madrugada.
Pois bem. Aí vem o Serra e proíbe fumar em qualquer ambiente público. Vai ser copiado em tudo quanto é canto, podem apostar.
Sou contra. Absolutamente contra.
Não gosto do Estado intervindo tanto na vida e na escolha das pessoas. Mas, se quer intervir de verdade, ao invés de botar mangana disfarçado pra multar bares, que tal proibir a fabricação e o comércio de cigarros? Fizeram isso com maconha, por exemplo. Não dá muito certo, mas a lei tá lá e de vez em quando serve como desculpa pra botar gente sossegada em cana.
Então... a vida ficou muito mais tranquila para os não-fumantes-de-tabaco-em-São-Paulo. A vigilância em cima dos fumantes de tabaco tá tão ferrenha, que não duvido nada ouvir, qualquer dia desses, durante um flagrante policial: "É maconha, doutor, é maconha! Não fumo tabaco não, pode ver aqui pelo cheiro", "Que nada, malandro. Pensa que eu não conheço esse fumo com filtro?", "não, doutor, eu juro que é só maconha! O filtro é porque eu não gosto da poeirinha que desce quando trago... Por favor, não me fiche! Não tenho dinheiro pra pagar a multa! Sou pai de família... Juro que vou pra uma clínica de reabilitação e voto no Serra!".
E os pobres garçons? Que situação... "Me vê um cinzeiro, por favor", "Sinto muito mas..." "Então vou jogar a cinza no chão", "mas tá proibido fumar aqui", "tá proibido o quê? Isso né maconha não, camarada, é cigarro que eu tô fumando, tabaco. Esse pessoal que fabrica isso aqui paga os maiores impostos para o governo, sabia? E ainda banca campanha eleitoral...", "desculpe, senhor, mas é que se eu deixar o senhor fumar aqui, o patrão vai ser multado, e aí me demite", "e meu direito de ir e vir? Sou um cidadão! Que porra de birosca é essa que não permite ao cliente desfrutar sua cervejinha com o seu cigarrinho?", "mas doutor, é a lei do Serra... mas o senhor quer fumar? Venha aqui atrás, eu levo o senhor no quintal do bar e o senhor fuma. É onde a gente tem fumado escondido", "Ah, escondido, né? Sabia! Você está multado! Eu sou fiscal da lei anti-fumo".
É flórida.
Fumar virou ato anti-social antes mesmo da lei. Bar sempre foi território livre para cigarros, certo? Só que isso já tinha mudado por essas bandas. Experimentasse o cidadão de acender seu fuminho legal numa mesa de bar. Os olhares vizinhos estariam voltados a ele. Alguém ia espirrar por perto. Uma mocinha ia comentar com o namorado que é um absurdo a falta de respeito dos fumantes com os não-fumantes. O outro ia resmungar de lá que deixou de fumar pra não morrer, mas agora era obrigado a fumar o cigarro dos outros. Um saco.
E vem a lei do Serra (falar nisso, tá rolando um babado forte de que o vampiro tucano tá com uma doença medonha, vocês souberam? Essa é quente, saída do forno!). Agora posso me vingar fácil de umas raivinhas comuns.
Se eu levar um tranca de um caminhão, ligo pra Polícia Rodoviária e aviso que o caminhoneiro tal está fumando em via pública! Melhor do que avisar que o filho da mãe me deu um tranca e quase me matou.
Se eu for assaltada, é só levar para a delegacia a bituca de um cigarro e dizer que o assaltante, além de fumar no seu ambiente de trabalho, ainda me deu uma baforada na cara, causando danos irreparáveis à minha saúde. É cana e multa pro safado. Ou pelo menos a multa, né?
Ex-maridos estão ferrados. Ex-esposas vão cobrar indenização por anos e anos de submissão a um cruel fumante. Aliás, herdeiros deserdados também podem apelar para este recurso, pois daqui a uns poucos anos Gilmar Mendes (vaso ruim não quebra cedo) vai criar jurisprudência: se você fuma, é diretamente responsável pelos danos causados à saúde de seus ascendentes, descendentes, parentes na horizontal (calma, me refiro a esposa, marido, e outros penduricalhos escolhidos pelo cidadão para estar ao seu lado), amigos, funcionários, chefes, patrões, vizinhos, inimigos e qualquer pessoa com quem você tenha tido contato na sua vida de fumante.
Tudo bem que é melhor estar num ambiente sem cigarro por perto. Sem dúvida. Mas não quero ter que deixar de tomar umas e outras e mais outras e mais umas outras e mais a saideira e mais a deira e a saída e a final e a saída final e a última e a última de verdade e a do troco com meus amigos fumantes. Sejamos civilizados: não precisa submeter todo mundo à fumaça do seu cigarro. É só criar ambientes para fumantes e para não-fumantes. Eu fico na ala dos fumantes, em solidariedade aos meus amigos fumantes e em solidariedade ao Lula e à Dilma e à Marina Silva e à Heloísa Helena (vixe, quanta candidata mulher!) e a qualquer oponente ao Serra.
(Se Serra fosse bom, não teria esse nome. É questão de predestinação mesmo.)
Fumo pra você, Serra. Quero ver o que você vai fazer quando o Obama visitar São Paulo e acender o cigarrinho bem no seu palácio temporário. Multa ele, que eu quero ver...
E um recado: se criou a lei para me fazer mais uma raiva, se ferrou. Deixei de fumar tabaco, babaca. Mas volto a fumar, e a tragar e a baforar bem na sua cara assim que o encontrar na rua, pode crer.