sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Ao sol, meu culto pagão

Aos que crêem, Feliz Natal.
Aos incrédulos, Bom Feriado.
Aos manguaças, cuidado com a ressaca.
Aos comilões, o prazer da ceia.
Aos meninos, os presentes.
Aos idosos, a família.
Aos solitários, as lembranças.
Aos amantes, muitos gozos.
Aos críticos, a arte.
Aos livros, o Desassossego.
À rotina, a surpresa.
Aos enamorados, a correspondência.
Aos doentes, a cura.
A quem está muito mal, Boa Morte.
E para todos em geral, Boa Sorte.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Pérolas do Ócio

(Foto: Jam Abelanet/Divulgação)- Não sou Madonna mas sou Mandona. Nem um "n" a menos.

- O Corinthians contratou o Ronalducho por uma questão de camisa. Na GG cabe mais propaganda.

- Os corintianos vão ter que trocar as cores do time ou pelo menos a cor da bola. Senão, quando o Ronalducho chutar a bola (sendo otimista ao imaginar que ele vai conseguir essa proeza) os "mano" da arquibancada vão gritar "faltaaaaaa".

- Horário de almoço em São Paulo: meia hora na fila de se servir; 15 minutos para encontrar uma cadeira vaga; 10 minutos para comer (cheio de gente ao redor fazendo pressão); meia hora na fila para pagar a conta.

- Puxa-saco é assim: Bush se esquiva de sapatada mas assessora fica de olho roxo.

- STF decidiu que político infiel vai perder o mandato. E agora, quem é que vai legislar, quem é que vai governar? O último a sair que apague a luz.

- Stallone está no RJ para ver a locação de seu próximo filme, que deve se chamar "Rambo 2009: a bala perdida". É o fim da série.

- Da série "não entendi nada": "Quando eu vi, vinha vindo assim, vi a coisa e saquei o trem todo, daí eu pá, fiz assim dum jeito meio de coiso, sabe?, e tchump, sartei!" (flagrante de um trecho de conversa entre duas mineiras pelas ruas de Varginha).

- Infame mesmo é o clipe da nova Ivete Sangalo do mundo gospel, "pó pará com o pó", já viram? Tá no Youtube.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Reflexo Bushal


Quando vi a cena, não acreditei. Era a realização de um sonho antigo. Ou melhor, a quase realização, pois de fato faltou pouco, muito pouco. E, pra falar a verdade, nem era mesmo o meu sonho, este muito mais agressivo. Um cara ousara. Confesso que eu não teria a coragem, mas começo a pensar com mais rigor sobre o assunto. Uma sapatada na cara do Bush. Uma não: duas. E o cara desvia... Merda. Dizem que o jornalista está com as duas mãos quebradas, além de algumas costelas. Diz que tem também hemorragia interna. É (ou já era?) repórter televisivo, o que me obriga a reconsiderar a opinião que sempre tive dessa espécie. Há ousadia do outro lado da telinha, afinal. Talvez até vista alguma roupa sem marca conhecida. Pode ser, porém não aposto nisso ainda.

Não sei como o FBI ainda não descobriu que o jornalista da sapatada é um terrorista. Dos piores. Daqueles que têm a chance, a oportunidade única, a coragem, a determinação, mas erram na hora H. Terroristas daqueles que implantam uma esperança de vingança em 99% do mundo e depois a descarta porque não mirou um pouco mais à direita e um pouco mais baixo. Terroristas daqueles que despertam nossos instintos mais baixos e depois nos frustram porque a arma, na verdade, era só um brinquedo. Era de plástico.

Bush merecia ao menos uma sapatada na cara. Ao menos isso.

Não sei como essas imagens e essa notícia foi divulgada nos quatro cantos do mundo de forma tão decente, tão correta. Eu, sinceramente, achei que numa situação como esta a gente receberia a informação em manchetes mais ou menos assim:


FBI PRENDE 2º PIOR TERRORISTA DO MUNDO

TERRORISTA PRESO DIZ AGIR EM NOME DE CHÁVEZ

FANTASIADO DE JORNALISTA, FIDEL AMEAÇA EUA

MÍSSEL EM FORMA DE SAPATO É TESTADO NO IRAQUE

INDÚSTRIA DO SAPATO É APONTADA COMO CAUSADORA DA CRISE

BUSH ESCAPA DA PORRADA, MAS NÃO DO CHULÉ

BUSH DEMONSTRA TER CÉREBRO E REFLEXO!

POLÍCIA IRAQUIANA NÃO RESPEITA LIBERDADE DE EXPRESSÃO

GOVERNO AMERICANO NÃO RESPEITA A DEMOCRACIA NO IRAQUE

JORNALISTA TEM PROTESTO REPRIMIDO

EUA TROCA MÃO POR SAPATO JOGADO EM BUSH

BILL GATES NEGA TER CRIADO JOGO "SAPATO NO BUSH"

FBI DIZ QUE IMAGENS FORAM EDITADAS POR BIN LADEN

"NUNCA FUI NO IRAQUE", DIZ BUSH

"BUSH NUNCA FOI AO IRAQUE", DIZ OBAMA

MONTAGEM DE "SAPATADA NO BUSH" É VÍDEO MAIS VISITADO DO YOUTUBE


E agora, os comentários dos famosos sobre o fato:


"Se fosse uma mulher a jogar o sapato, teria atingido o Bush. Pelo menos o salto" - Luciana Gimenez.

"É inaceitável. Inacreditável: a que ponto chega a barbárie humana? Tentar atingir o líder da mais poderosa nação com um sapato de fabricação chinesa é o ápice do mau gosto" - Renato Machado.

"O presidente Bush não foi atingido por causa do seu maravilhoso reflexo. Mas o episódio nos faz pensar: e se acontecesse algo parecido com o presidente Lula? Será que, com tantos anos de cachaça, ele não teria o reflexo deteriorado e poderia ser atingido?" - Alexandre Gracinha.

"Caraaaaaaalhooooo... Poooorrrraaaaa... Quase pegou!..." - Ana Cláudia Nogueira.

"Yeah!" - Al Gore.

"My God!" - 98,94% dos cidadãos americanos.

"U-hu!" - 98,94% dos cidadãos israelenses.

"Isto não condiz com a postura de um profissional da imprensa" - Alberto Dines.

"Eu sabia que isso ia acontecer. Diante da crise financeira mundial imposta pela política de Bush, eu previ, em 18 de outubro de 2008 às 14h32, que o presidente dos Estados Unidos sofreria um atentado deste tipo. Até comentei com minha vizinha" - Mãe Marluce da Quixaba.

"Se este ser desaparecesse do mundo, ia ser maravilhoso para todo mundo". - Ana Maria Braga. (aliás, desculpe: agora me lembrei que essa declaração ela usou mas foi para o a partir de então finado ex-marido de Suzana Vieira).

"Creeeeeedo, o jornalista sequer usou um sapato de marca!" - Clodovil.

"Queria ver esse bandido agora, com as costelas quebradas e os ossos das mãos à mostra, dizer que é macho e que faria tudo de novo. Bandido é tudo igual. Bandido merece é xadrez. Parabéns, Bush, pelo seu magnífico reflexo" - José Luiz Datena.

"A nossa produção está tentando chegar à cela do jornalista iraquiano com o celular, para que possamos entrevistá-lo a vivo, para que ele nos conte o que sentiu no momento em que jogou o seu sapato predileto em direção ao rosto do presidente estadunidense" - Sônia Abraão.

"Jogar o sapato na cara dele, na frente de todas as câmeras... mas como não pensei nisso antes, Silveirinha?" - Flora, a vilâ de A Favorita.

"Foi a Flora, Zé Bob. Tenho certeza, foi ela!" - Donatela, a mocinha de A Favorita.

"Bush provou que tem reflexo, e reflexo é uma característica de quem tem cérebro, donde podemos concluir que, apesar da evidente falta de evidências, Bush tem cérebro" - Seu Nicolau, freguês filósofo diário, horário e honorário do boteco de Seu Onofre.

sábado, 29 de novembro de 2008

Esquina Paranóia Delirante


Praça da Sé, centro da capital paulista, sexta-feira, 14h.
Cinquenta funcionários públicos estaduais sentados na escadaria falam mal dos chefes, esculhambam o governador, trocam receitas culinárias, se dedicam a escrutinar a vida alheia, reclamam do sol forte, suspiram por causa do atraso.

Praça da Sé, centro da capital paulista, sexta-feira, 14h30.
Cinquenta sindicalistas estão de pé, circulando entre grupos pequenos, distribuindo panfletos e jornais, rindo muito, falando alto, falando que tem pouca gente, falando que o evento é um sucesso, se fica no falatório ou vai ter andança, anunciando a agenda pagã do ato público logo mais à noite, quando conseguirem terminar aquilo ali (e vamos terminar logo, diz o consenso).

Praça da Sé, centro da capital paulista, sexta-feira, 15h.
Centenas de funcionários públicos se misturam aos dirigentes sindicalistas, todos de pé, todos procurando uma sombra pra se proteger do sol tão forte que quebra a barreira da poluição paulistana. Escutam trechos do falatório, três ou quatro aplaudem quando é o seu presidente de sindicato quem fala, a conversa é diversa entre eles. Uns querem dar uma passadinha na feira hippie da praça, outros se preocupam porque deixaram o carro na zona azul e o cartão vai vencer, outros se gabam de ser inteligentes por terem vindo de metrô. Ainda tem gente distribuindo panfletos e jornais, o estoque parece ser ilimitado.
Tem um monte que segura faixa. Tudo quanto é faixa pede respeito, enquanto o segurador está com a mão por sobre os olhos protegendo-os do sol enquanto eles procuram um lugarzinho com sombra, alheio ao discurso que está sendo jogado às traças em cima de um caminhão panfletário.
Tem um monte que bate foto. Não sei onde vão parar essas fotos, nem sei porque se precisa de tantos fotógrafos num evento como esse. Quase tem mais fotógrafo que dirigente sindical, todos com cara séria, todos preocupados em pegar o melhor ângulo, alguns, mais despachados, de vez em quando conseguem flagrar alguma bunda bonita passando ao lado, com corpo e tudo. Sobe e desce o caminhão, vai à direita e à esquerda, fica no centro, se ajoelha, mas não reza: bate foto. Cara, é muita foto. Viva a máquina digital.
Na mesma praça, sem ser sindicalista nem servidor público nem fotógrafo, tem o pastor com seu auxiliar. Os dois chamam mais a atenção de seu público do que os dirigentes sindicais com seus mesmos discursos "improvisados" de sempre. O pastor berra e se faz ouvir. Consegue a atenção de quem tá só passando, não reclama do calor apesar do terno mal cortado e da gravata surrada. Não reclama do baixo salário e dá até para se pensar que sequer ganha algum. Não critica o governador porque o único que reconhece é o seu poderoso e supremo deus, a quem ninguém jamais conseguiu empulhar com alguma greve. Não reclama na verdade de nada, só quer aumentar o seu rebanho que nem seu é. O pastor.

Praça da Sé, centro da capital paulista, sexta-feira, 16h.
Retorno ao evento sindicalista e quase me surpreendo ao verificar que as centenas que conversavam em pé se transformaram em dezenas miúdas com cara de "chega". Dos sindicalistas lá em cima só sobraram os fraquinhos, aqueles que dizem "tchau, galera" e "vamos nos unir contra essa política de arrocho salarial". Do resto, nem sinal. Os que estavam sentados na escadaria da Sé continuam miraculosamente lá, e eu fico pensando se na verdade não são apenas figuras integrantes da paisagem (e que eu confundi como funcionários públicos). Nenhum fotógrafo à vista. O pessoal da faixa é que está em plena atividade, retirando o precioso material que será desenrolado no próximo ato numa sexta-feira qualquer talvez novamente ensolarada e com os mesmos figurantes.
Pego o metrô e venho embora pra casa. Fui esperta, fui de metrô ao evento.
E nem sou funcionária pública. Nem sindicalista. Nem fotógrafa. Nem crente.

Caê Jagger

Alguém pode me explicar porque sou obrigada a dominar outro idioma senão o do meu país, desde que vivo no meu país e não pretendo viver fora dele? Alguém me explica essa "necessidade", por favor?
Aproveite e explique também porque eu tenho que receber o turista falando o idioma dele, e não o meu próprio.
Vai te fuder com tanta subserviência.
Nasci sem grilhões, e viverei sem eles - sempre que puder optar, claro.
Pra vocês, Caetano:
Língua
Caetano Veloso

Gosta de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões
Gosto de ser e de estar
E quero me dedicar a criar confusões de prosódia
E uma profusão de paródias
Que encurtem dores
E furtem cores como camaleões
Gosto do Pessoa na pessoa
Da rosa no Rosa
E sei que a poesia está para a prosa
Assim como o amor está para a amizade
E quem há de negar que esta lhe é superior?
E deixe os Portugais morrerem à míngua
“Minha pátria é minha língua”
Fala Mangueira! Fala!
Flor do Lácio Sambódromo
Lusamérica latim em pó
O que quer, o que pode esta língua?
Vamos atentar para a sintaxe dos paulistas
E o falso inglês relax dos surfistas
Sejamos imperialistas! Cadê? Sejamos imperialistas!
Vamos na velô da dicção choo-choo de Carmem Miranda
E que o Chico Buarque de Holanda nos resgate
E – xeque-mate – explique-nos Luanda
Ouçamos com atenção os deles e os delas da TV Globo
Sejamos o lobo do lobo do homem
Lobo do lobo do lobo do homem
Adoro nomes
Nomes em ã
De coisas como rã e ímã
Ímã ímã ímã ímã ímã ímã ímã ímã
Nomes de nomes
Como Scarlet Moon de Chevalier, Glauco Mattoso e Arrigo Barnabé e Maria da Fé
Flor do Lácio Sambódromo
Lusamérica latim em pó
O que quer, o que pode esta língua?
Se você tem uma idéia incrível é melhor fazer uma canção
Está provado que só é possível filosofar em alemão
Blitz quer dizer corisco
Hollywood quer dizer Azevedo
E o Recôncavo, e o Recôncavo, e o Recôncavo meu medo
A língua é minha pátria
E eu não tenho pátria, tenho mátria
E quero frátria
Poesia concreta, prosa caótica
Ótica futura
Samba-rap, chiclete com banana
(Será que ele está no Pão de Açúcar?)
- Tá craude brô?
- Você e tu
- Lhe amo
- Qué queu te faço, nego?
- Bote ligeiro!
– Ma'de brinquinho, Ricardo!? Teu tio vai ficar desesperado!
- Ó Tavinho, põe camisola pra dentro, assim mais pareces um espantalho!
– I like to spend some time in Mozambique
– Arigatô, arigatô!
Nós canto-falamos como quem inveja negros
Que sofrem horrores no Gueto do Harlem
Livros, discos, vídeos à mancheia
E deixa que digam, que pensem, que falem.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Mosaico


Quantos foram os humildes que pediram a meus pés,
E, por discurso, neguei?
Quantos choros retive por medo de me desmascararem,
Sem saber que não usava máscara alguma?
Quantas verdades e certezas joguei na cara dos outros
Sabendo serem falsas?
Quantas vezes deixei de escutar a quem precisava
Por uma pressa inútil?
Quantas vezes menti
Jurando sinceridade?
Quantos anéis arranquei de dedos amigos
Sem nem me dar conta disso?
Quantas vezes fugi da luta e abandonei o barco
Sem considerar a quem havia abandonado?
Quantos nãos eu disse em vida
A quem merecia meus sins?
Quantas vezes me iludi
Com minha falsa fortaleza?
A quem espero enganar
Com essa falsa confissão?
Quantos deuses penso copiar
Em minha liberdade?
A quantos precisarei perguntar
Quem sou eu, afinal?

Sinceramente


Não é teu choro que me comove,
É a tua sinceridade infantil.
Não é tua ausência que me dói,
E sim o teu egoísmo calhorda.
Não é por você que me dôo;
É pelo sonho que construí.
Nunca te traí
Porque jamais trairia a mim mesma.
Para sempre viveria contigo
Desde que o sempre fosse o amanhã.
Talvez eu te escutasse um dia
Se um dia você me enxergasse.
Não é a paixão que me arde,
Isso é loucura.
Não é a você que eu busco
E sim, a gota d´água do meu vazio.
Não é a você que eu amo:
Somente a tua imagem dissemelhante.
Não é por você que choro,
Mas pela tua imagem em meu espelho.
Não tenho esperança de que você me encontre,
Pois meu mundo é fora de teu umbigo.
Meu amor, não é a você que odeio,
É a mim, por amar a você.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Êta trem bão, soul.


Meu amigo Dimas me provocou, ao dizer que eu andava com mineirices. Quer saber, Dimas? Aí vai sua resposta:

Ei, ó o auê aê, ô! Quéqué isso, cumpadi, tá com firula pra riba deu? Pia a peste, que praga de mãe! Ôrra!
Sabe o que é, Dimas? É que esse trem tem esse troço que faz a gente coisar assim desse jeito, no mais é quatro mais cinco noves fora zero, mano. É marromeno coisa de cabra bestaiado mermo.
Caraca, viu, é cada uma que acontece com o sujeito que, se eu não tivesse embaixo do céu e em cima da terra, não believava não. Se eu não fosse uma guria tão porreta, garanto que tu ia subir teu pneu na calçada na maior, da hora em que o quentão desabrocha até quando o caboclo chega pro chima.
Tá me estranhando, né não? Pra tu chegar assim todo faroleiro puxando o bode no quintal dos outros, se escangalhando do meu palavreado pernamineiro, tem que tá é muito seguro, com costa quente de dotô e tudo.
Óia, pia só um negocinho: eu posso estar morando onde a lombriga torce o rabo, o que importa é que eu vim donde vim, fui pronde fui, passei donde andei, juntei tudo, botei numa cumbuca e tô me refastelando que nem menino buchudo de beira de canal. E ói que o caldo inda nem ficou pronto - imagine quando eu fizer o pirão!

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Amigos

Quando eu conheci o Zé a gente nem tinha uma bola para poder brincar no quintal da casa. Éramos vizinhos. Filhos de pobres, os dois, cada qual com sua penca de irmãos e primos e tios e avós, tudo morando pertinho um do outro. Dava cada briga danada, daquelas que terminavam em correria, xingamento e intriga para o resto da vida que não existia mais em apenas duas horas. Eu e o Zé não, a gente nunca brigou. Teve uma vez só que ele ficou intrigado de mim, mas foi besteira e não demorou nadinha pra gente fazer as pazes de novo. O que aconteceu foi que ele pediu um pedaço do meu chiclete, que eu tinha ganho no troco do pão, e eu neguei. Eu queria fazer uma bola daquelas, das bem grandes, e com meio chiclete de troco de pão não dava. Zé na hora ficou com raiva, mas melhorou a cara quando eu prometi a ele que quando recebesse outro troco de chiclete, eu daria todinho a ele.
A gente cresceu assim desse jeito, como se fosse irmão um do outro. Gostava mais do Zé do que qualquer um dos meus irmãos de sangue, mas isso não quer dizer que eu não gostasse dos filhos dos meus pais. Gostava de todo mundo, mas Zé era meu irmão preferido. E eu sabia que o Zé gostava de mim assim também, como irmão predileto. Como a gente era o primeiro filho de cada família, a gente teve a sorte de ir pra escola desde cedo. Pai dizia que ao menos um tinha que ser estudado, que era pra eu me formar e ajudar os outros a estudarem também, pra tudinho melhorar de vida.
Todo dia eu ia pro grupo escolar, que depois mudou de nome e passou a ser chamado de escola municipal. Gostava de estudar, mas gostava mais mesmo era da hora do sino, quando a professora mandava a gente sair da sala pra dar descanso pra cabeça. Aí juntava os meninos todos e a gente brincava com a bola de Iraquitan, que era meio abestalhado. A gente não gostava de brincar com Iraquitan porque ele não entendia nada direito, tudo a gente tinha que explicar duas vezes para aquele bestado. Mas ele tinha a bola, só ele tinha a bola. Ele não era mais rico do que eu ou nenhum dos meninos. A bola que ele tinha, a mãe dele ganhou num bingo na festa da padroeira. Ela queria ganhar a cesta de comida, mas só tirou a sorte no prêmio da bola, e Iraquitan terminou ficando com o prêmio porque a mãe tinha pena dele, que era bestado.
Eu e Zé éramos bons alunos. Quando ficamos mais velhos, na idade em que não podia mais estudar no grupo, os pais da gente se juntaram e combinaram de mandar nós dois pra Recife, na pensão de uma mulher que era aparentada da prima de mãe e que ficava lá pros lados de Santo Amaro. A mulher tinha dito que fazia um precinho bom se os dois fossem dividir o mesmo quarto, aí o pai acho que era coisa boa de se fazer, e o pai de Zé também achou. E foi assim que a gente veio bater aqui na capital.
Foi difícil, eu não vou mentir aqui pra vocês. Toda vez que eu escrevia uma carta pra mãe, dizia que tava tudo bem, que não faltava nada, mas era pra mãe não se preocupar, coitada. A pensão era ruim, a comida era pior ainda. Ainda assim, a gente conseguiu estudar direitinho, conseguiu passar de ano todo ano. Namorada a gente não tinha, porque na cidade grande, naquele tempo, só namorava com moça de família quem era moço de família, e a gente não era. A gente fazia uns bicos quando aparecia a chance, e com o dinheiro a gente ia adquirindo umas coisinhas bestas, ou gastando com as putas do centro - que a essa altura a gente já era homem feito.
Só sei que nessa dificuldade toda a gente foi levando a vida do melhor jeito que dava pra levar. Como não tinha dinheiro pra se divertir direito, a gente enfiava a cara nos livros, e assim a gente conseguiu, logo de primeira, vaga na universidade. Zé foi estudar pra ser doutor, pra ser médico, e deixou todo mundo da família mais contente que pinto no lixo. Eu achava bonito ser advogado, e consegui me formar sem ser reprovado nenhuma vezinha. Pai e mãe quase morreram de felicidade quando eu contei que tava estudando.
Muita coisa boa e ruim aconteceu nesse tempo de faculdade. E eu e Zé sempre unidos, sempre irmanados, passando por tudo junto, um dando força ao outro, sempre na pensão de Santo Amaro. A gente era separado lá na faculdade porque era pobre. Na minha turma de aula, os outros queiram porque queriam que eu deixasse de falar "como matuto", como eles diziam, pra falar "como gente", ou seja, era para eu imitá-los. Não, moço: hoje eu uso até terno, mas nasci bicho do mato e vou morrer assim. É como eu gosto de ser, e se você não gostar, o problema é seu.
Lindaura gostava, no começo. Ela não implicava com meu jeito de falar, e dizia que gostava de mim. Eu mesmo acho que ela gostava mesmo. Não sei o que ela viu em mim, mas gostou e eu gostei dela também. A gente namorou com a permissão dos pais dela, tudo certinho. Só que de tanto a gente namorar, eu quis pegar mais intimidade com ela, e ela me apertou dizendo que se era pra começar com safadeza, era melhor casar. E foi por isso que eu casei. Pela primeira vez na vida, ia morar distante de Zé. A essa altura, eu recém-formado, já ganhava um dinheirinho. Aluguei uma casinha em Campo Grande e fui levar o resto da minha vida.
Zé demorou mais que eu a casar. Dizia que o curso exigia muito mais estudo, e eu acho que era verdade mesmo, porque Zé só fazia estudar, enquanto eu namorava com Lindaura. Zé só foi sair da pensão quando já tinha mais de 30 anos. A essa altura ele já tinha um monte de emprego e ganhava um dinheiro bem bom, mas só queria saber de juntar dinheiro e de trabalhar, trabalhar, trabalhar. A gente ficou meio afastado nesse tempo. Aí um dia ele teve lá em casa, Lindaura já esperava nossa primeira filha, e disse que tinha encontrado uma moça boa e ia se casar.
A moça era boa mesmo, parecia. Zé casou com ela. E essa foi a nossa desgraça.
Hoje eu já tô cansado de contar história da minha vida. Outro dia eu termino essa conversa.
Boa noite procês tudo.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Tá todo mundo louco, oba!


19/11/2008 - 08h38
Dantas pagou R$ 18 milhões em propinas a políticos, juiz e jornalistas, diz PF
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RUBENS VALENTE, da Folha de S.Paulo
O delegado da Polícia Federal Carlos Eduardo Pellegrini, que atuou na Operação Satiagraha, revelou que a PF apreendeu documentos no apartamento do banqueiro Daniel Dantas que apontam pagamento "de propinas a políticos, juiz, jornalistas".

Cadê a lista dos coleguinhas que receberam propina? Se fosse só de políticos e juízes, os nomes estavam bombando em tudo que era canto.

As revelações de Pellegrini, que não citou nomes,

Por que não citou nomes? E cadê esses nomes agora? Falar nisso, alguém já ouviu falar da lista de coleguinhas que recebem o plano de saúde da Câmara? Não? Pois é... mas os nomes dos beneficiários é segredo de estado.

estão gravadas na fita que documentou a reunião ocorrida no dia 14 de julho na sede da PF paulistana, que selou o afastamento do delegado Protógenes Queiroz do comando da investigação.
Leiam "O Processo", de Kafka, e vão entender melhor o por quê do delegado que investiga estar sendo escrachado pelas autoridades, enquanto o banqueiro - ladrão corrupto e outros sinônimos tais - está realizando jantares de confraternização.
Pellegrini disse à Folha

corrigindo: à Falha

na quarta-feira que não se recorda de ter dito isso na reunião.

Falha de memória é comum. Muito estresse, sabe cuméqueé.
"É um grupo muito forte. Eu fui executar a prisão [de Dantas] lá no [escritório do advogado] Nélio Machado [em SP] e tinha dois desembargadores aposentados e um juiz do Rio. Na casa do Dantas eu achei vários documentos --o Vitor achou de 2004--, de 2007, R$ 18 milhões de pagamento de propinas para políticos, juiz, e jornalistas no ano de 2007", disse Pellegrini.

Aliás, diz o anedotário universitário: sabe o que acontece com jornalista apadrinhado quando é pego com a mão na botija de porcelana chinesa? Vira correspondente internacional (opa, a maioria dos correspondentes são sérios, mas sempre não é todo dia), tira férias de seis meses ou vira comentarista. Não é uma Gracinha, Alexandre?

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Domingão

Quando acordei senti aquele troço peludo entre minhas pernas. Quente, macio, mas incômodo. Quis me virar e não consegui com aquele peso me prendendon as pernas. E eu queria dormir mais. Eu podia dormir mais: era domingo e eu não tinha nenhum compromisso. Ia passar o dia todo de bobeira dentro de casa, fazendo nada, que é uma das coisas que mais gosto de fazer. Merda, aquele troço me prendendo as pernas, me tirando o sono, me tirando o humor. E nem de gato eu gosto. Aliás, o que esse gato está fazendo em cima da minha cama, no meio das minhas pernas?
Fecho os olhos. Engraçado, olhos abertos ou fechados não devem interferir em nada o nosso pensamento. Mesmo sabendo disso, fecho os olhos sempre que quero me concentrar demais em alguma coisa. E agora eu quero me concentrar pra saber o que diabos essa coisa peluda e de unhas afiadas está fazendo em cima de mim. Ah sim - lembro: dormi na casa de uma amiga. E ela tem um gato. Ou melhor, uma gata, Chuchu.
Forço um pouco mais minha concentração. Minha amiga deve estar dormindo. Não escuto nada, nenhum barulho. Não vai ver se eu matar a gata. Não, não precisa matar. Basta esganar e jogar a uma distância mínima de cem metros. O que acontecer no trajeto (meio ou fim) não me diria respeito. Só respondo pelo que acontecer na saída. Sou igualzinha a vendedora de McDonalds, não me importo com sabor, textura ou temperatura - afinal, o cliente primeiro passa no caixa e só depois é que faz o pedido. E quem gasta 13 contos pra comer aquilo, merece mesmo esse tratamento.
Desisto do plano. Sinceramente? Sempre soube que não o cumpriria mesmo. Todo mundo sabe disso, que sou espalhafatosa e bocuda, mas no fundo eu só tenho é tamanho mesmo. Epa, não tamanho de fundo, tamanho no fundo. Quer dizer, na verdade eu só tenho tamanho. Ah, vocês entenderam. Jamais faria uma maldade com um bicho. Talvez alguma maldade com o bicho-homem. Talvez muita maldade com esse animal, no entanto, ele sempre merece. Quando ele sacaneia, é de caso pensado, com argumento e tudo. Por isso sacaneio esse bicho: porque sou da mesma laia que ele. Um pouquinho melhor que um bocado deles, um tantinho pior do que um monte, mas no geral, tirando dois botando cinco e multiplicando por zero, igualzinha aos meus. Quem sai aos seus não degenera, dizem.
Tiro cuidadosamente a gata de cima das minhas pernas com um pouco de medo. Tenho medo de felinos, eles são muito ágeis demais da conta pro meu gosto. Quando eu penso que vou receber uma lambida (sem sacanagem) posso levar uma unhada, e visse o verso. Desssa vez fui cheia de cuidados e a gatinha correspondeu toda dengosa, esfregando a cara em minha mão, pedindo só um pouquinho de carinho pelamordedeus. Ai que lindinha... tão fofa... mas peraí, essa coisa peluda me acordou cedo num domingo preguiçoso e sem compromisso, a filha da puta.
Tiro a gata de cima da cama, levanto, estico os músculos igualzinho à gata. Vi ela se espichando toda num espreguiçar de dar inveja, e deu. Inveja, claro. E fiz. Igualzinho, mas do meu jeito, me estiquei e até pensei que o molar direito tinha se esticado um pouquinho também. Vou ao banheiro fazer o xixi sagrado (sempre essa maldita impressão ao acordar: se eu tivesse dormido mais cinco minutos, mijaria na cama). Escovo os dentes antes mesmo de colocar qualquer comida na boca. Tenho essa mania: acorda, escova os dentes. Come, escova os dentes. Vai deitar, escova os dentes. Vai sair, escova os dentes.
Tomo um banho, visto o camisão de novo. A seguir, o gesto fatal de intimidade: vou na cozinha, vasculho tudo até encontrar cafeteira, filtro de papel e pó de café. Sem o café da manhã não sou nada, sem o café da manhã eu não acordo, sem o café da manhã fico com dor de cabeça o dia todo. E ficar com dor de cabeça num domingo que não se tem porra nenhuma pra fazer é lasca.
Peraí... se é domingo, se eu não tenho compromisso, se não tem nada pra fazer, o que é que estou fazendo em pé às 8 da madrugada, já de banho tomado? Ah, a gata.
- Chuchu! Chuchu! Vem aqui, gracinha... vem, Chuchu...
Lembrei. Agora eu juro que mato ela.

Dimas, esse é o primeiro exercício que eu faço com o seu novo método de escrita. Saiu assim fácil, fácil. Gostei.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Decisão


Reencontrei minha esperança numa encruzilhada
Bem no meio do transtorno de duas avenidas
De braços dados com o sorriso e sendo puxada pelo pranto
Imune à realidade, como quase sempre.
Tinha na mente o futuro
E arrastava o passado nos pés inchados, maltratados, imundos.
Os olhos buscavam o movimento à procura de quietude
Contrariando sua natureza arisca e imprudente.
O próprio corpo se rebelava, desejando o verso,
Como se não pudesse unir antes o que era e o que devia ser
Numa única existência, ainda mais curta que a minha e a sua.
E tudo isso parado, em pé, numa encruzilhada qualquer.
À direita, viu a decepção gingando com bossa, se aproximando;
Do outro lado, a coragem chegava.
Entre uma e outra, nenhuma:
Tomou impulso e correu pra frente. Foi.
Entre o desespero e a coragem, nada.
Entre ser e não mais ser, a desistência.
Toda a minha esperança esmagada
Ali, naquela qualquer encruzilhada.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Ah, se Nelson Rodrigues estivesse vivo...


Louca é a vida real, não a imaginação - esta sim, limitada. Tem dúvida? Pois olha só o que aconteceu de ontem para hoje no mundo - só uma pequena amostra, claro. Notícias retiradas do site G1.


1) "Você vem comigo!"

Idosa morre ao ser atingida pelo caixão do companheiro
Uma mulher de 67 anos morreu na madrugada desta segunda-feira (10), depois de ser atingida pelo caixão do seu companheiro. Segundo a assessoria de imprensa do Comando Rodoviário da Brigada Militar, a idosa estava no veículo da funerária, que transportava a urna de Tapes para Alvorada (ambas no Rio Grande do Sul), pela RS-717. Um carro bateu na traseira e o caixão acabou se deslocando e atingindo a vítima.


2) O que acontece quando não se tem uma lista telefônica:

Um homem que era mantido refém desde sábado (8) em Santo Anastácio, a 589 km de São Paulo, foi libertado na tarde deste domingo (9) pela Polícia Militar. De acordo com a polícia, dez pessoas, entre elas cinco adolescentes, foram flagrados agredindo e torturando a vítima. Todos foram presos. Segundo a vítima, os suspeitos queriam que ele fornecesse nomes, endereços e dados pessoais de alguns de seus parentes, que são agentes penitenciários. Como a vítima havia se recusado, mesmo tento sido agredida com choques elétricos, os criminosos se preparavam para matá-la.

3) Deus precisa tomar uma providência!

(...) Lula também falou no “Café com o presidente” sobre a viagem que faz para a Itália nesta segunda. De acordo com ele, no país europeu serão discutidas com empresários a possibilidade de investimentos no Brasil. O presidente também terá um encontro com o papa Bento XVI, em que será assinado um acordo entre o Estado brasileiro e o Estado do Vaticano. Lula disse que aproveitará para falar com Bento XVI sobre a crise econômica.


4) Vários coelhos com uma dinamitada só:

Criminosos invadiram a Delegacia de Entorpecentes de Botucatu, a 238 km de São Paulo, na madrugada desta segunda-feira (10). Quando deixavam o local, eles usaram dinamite para destruir o prédio, que corre o risco de desabar. Eles chegaram em uma caminhonete, arrombaram a porta da frente, roubaram o cofre onde ficavam guardadas as drogas apreendidas e também levaram as armas. Depois, queimaram todos os inquéritos e boletins de ocorrência que estavam na delegacia.


5) Pra que lado a corda arrebenta mesmo? Vide Kafka.

A Polícia Federal (PF) deverá indiciar ainda esta semana o delegado Protógenes Queiroz, responsável pela Operação Satiagraha , por cinco crimes: quebra de sigilo funcional, desobediência, usurpação de função pública, prevaricação, grampos e filmagens clandestinas. A operação efetuou a prisão do banqueiro Daniel Dantas. Se condenado por todos os crimes, como deseja a própria PF, Protógenes pode pegar as penas mínimas, somadas, de três anos, seis meses e 15 dias de prisão.

6) Barganha da Universal Pictures.

Uma famosa série infantil de TV está proibida para menores de 18 anos na Finlândia. A versão em DVD de "Little House on the prairie", que no Brasil foi traduzido como "Os pioneiros", não foi submetida à classificação etária e acabou recebendo o carimbo com a marca "só para adultos".
Meri Suomela, gerente de marketing da Universal no país, diz que a empresa decidiu não enviar a série aos órgãos de classificação porque queria economizar dinheiro. As autoridades finlandesas cobram o equivalente a US$ 2,57 por minuto de duração de cada obra audiovisual submetida à análise. Distribuidores que se recusam a ter um produto analisado são obrigados a vendê-lo com o selo "proibido para menores de 18 anos".


7) Tem certeza que não é meu???

Flagrado por um policial em Fairbanks, no Alasca, um motorista se disse surpreso de estar dirigindo um carro roubado. Charles J. Schultz, 27, afirmou ter certeza de que estava em seu Chevy Cavalier quando foi informado de que na verdade dirigia um Escort, da Ford. Apesar de suas afirmações, o homem responderá na Justiça por furto de automóvel e por dirigir sob efeito de substâncias químicas. Testes de sangue feitos no rapaz mostram que ele havia ingerido duas vezes mais álcool do que poderia, antes de dirigir.


8) Flanelinhas, unidos, jamais serão vencidos!

O Sindicato dos Guardadores de Automóveis (Singaerj) informou que 90% dos estacionamentos rotativos da Zona Sul continuam sendo ocupados por guardadores autônomos. Nesta segunda-feira (10), estava previsto o início do novo sistema, administrado pela empresa Embrapark. Às 7h, os guardadores, segundo o presidente do Singaerj, José Vieira, começaram a ocupar seus pontos do Leme a São Conrado, impedindo que os funcionários da nova empresa começassem a trabalhar. Mas segundo ele, não houve tumulto. Somente em Copacabana houve discussão e o caso, de acordo com Vieira, foi levado à 13ª DP (Ipanema). “Estamos lutando por nossos direitos. Essa empresa ganhou a licitação de forma irregular, segundo o próprio Tribunal de Contas do Município (TCM). A prefeitura não deveria permitir isso. Entramos com recurso contra a empresa, mas ele ainda não foi julgado. Queremos garantir o emprego 1.800 guardadores autônomos”, disse Vieira.


9) PAULO COELHO ironiza o vazio existencial do mundo fashion!

Para escrever o livro “O vencedor está só”, cujo tema central é o culto das celebridades, precisei fazer uma interessante pesquisa sobre a rotina daquelas que habitam o imaginário coletivo: a modelo fotográfica. Por mais diferentes que sejam, existe um invariável padrão de comportamento que reproduzo aqui:
A] antes de dormir, usam vários cremes para limpar os poros e conservar a pele hidratada – viciando desde cedo o organismo à dependência de elementos externos. Acordam, tomam uma xícara de café preto, sem açúcar, acompanhada de frutas com fibras – de modo que os alimentos que vão ingerir durante o dia passem rapidamente pelos intestinos. Sobem na balança três a quatro vezes por dia; entram em depressão por causa de cada grama a mais que o ponteiro acusa.
B] Todas estão conscientes de que em breve serão ultrapassadas por novos rostos, novas tendências, e precisam urgentemente mostrar que o talento vai além das passarelas. Vivem pedindo às suas agências que consigam um teste, de modo que possam mostrar que são capazes de trabalhar como atrizes – o grande sonho.
C] Ao contrário do que diz a lenda, pagam suas despesas – passagem, hotel, e as saladas de sempre. São convocadas pelos assistentes de estilistas para fazer o que chamam de casting, a seleção das que serão escolhidas para enfrentar a passarela ou a sessão de fotos. Neste momento, estão diante de pessoas invariavelmente mal-humoradas que usam o pouco poder que têm para extravasar as frustrações diárias, e jamais dizem uma palavra gentil ou encorajadora: “horrível” é geralmente o comentário mais escutado.
D] Seus pais se orgulham da filha que começou tão bem, e se arrependem de terem comentado que eram contra aquela carreira – afinal de contas, estão ganhando dinheiro e ajudando a família. Seus namorados têm crises de ciúmes, mas se controlam, porque faz bem ao ego estar com uma profissional da moda. Suas amigas as invejam secretamente ou abertamente.
E] Freqüentam todas as festas para que são chamadas, e se comportam como se fossem muito mais importantes do que são, um sintoma de insegurança. Ali estão sempre com um copo de champanhe nas mãos, mas isso é apenas parte da imagem que desejam passar. Sabem que o álcool tem elementos que pode afetar o peso, de modo que a bebida preferida é água mineral sem gás – o gás, embora não afete o peso, tem conseqüências imediatas sobre o contorno do estômago.
G] Dormem mal por causa dos comprimidos. Escutam histórias sobre anorexia – a doença mais comum no meio, uma espécie de distúrbio nervoso causado pela obsessão com o peso e com a aparência, que termina educando o organismo a rejeitar qualquer tipo de alimento. Dizem que isso não acontecerá com elas. Mas nunca notam quando os primeiros sintomas se instalam.
H] Saíram da infância diretamente para o mundo do luxo e glamour, sem passarem pela adolescência e juventude. Quando lhes perguntam quais os planos para o futuro, têm sempre a resposta na ponta da língua: “faculdade de filosofia. Estou aqui apenas para poder pagar meus estudos”. Sabem que não é verdade. Não podem se dar ao luxo de freqüentar uma escola – há sempre um teste pela manhã, uma sessão de fotos à tarde, uma festa em que precisam estar presentes para serem vistas, admiradas, desejadas.
As pessoas acham que vivem uma vida de contos de fada. E elas querem acreditar nisso. Até que um escritor mais curioso resolve não desistir, e ir adiante nas perguntas. Depois de muita hesitação, terminam dizendo: “nasci para ser atriz. Portanto, sou capaz de fingir que esta miséria é a profissão mais glamourosa do mundo”.

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Depois dessa, chega né?

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Reação

Quanto mais me dói,
Mais valorizo minha liberdade.
Quanto mais me machuca,
Mais me amo.
Quanto mais me irrita,
Mais desabafo e brigo.
Quanto mais me provoca,
Menos penso em ceder.
Quanto menos me valoriza,
Sou muito mais eu.
Posso até chorar,
Mas será sempre menos que você.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Raiva

Tem o suor.
O calor avermelha o rosto
O ar foge do seu alcance
A visão torna-se turva
O cérebro acelera
Tudo fica limpidamente confuso.
A profusão das peças que compõem o quebra-cabeça.
Nem dá para sentir o amor indo embora
A consideração, o respeito se esvaindo
A mente trocando de dono
E o olho que só enxerga o alvo.
Nem se pode lembrar de outra coisa qualquer
Que esteja fora daquele instante.
O animal se impõe quase absoluto.
O que ainda há de humano
Forma migalhas invisíveis pelo ar
Presas a uma única e frágil raiz,
Um simples resto de racionalidade.
A cobiça se foca no mal ao outro
O orgulho só deseja a vingança,
O décimo segundo que certifica o nocaute.
A passividade se reverte em ação
A lógica sobe na corda bamba
Frustrações antigas se agrupam rapidamente
E tudo forma um conjunto sólido
A reverberar o sentimento
Que liberta a fera acossada
Que normalmente ruge e toma seu destino,
Mas que, hoje, só se contenta com a carniça.
É a transmutação do medo,
A justiça em meio à impunidade,
A sobressalência do eu,
A reação.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Não é lógico?

A polícia americana descobriu uma quadrilha que planejava matar o candidato negro à presidência, Barack Obama. E agora, os cidadãos skinheads americanos serão bombardeados? Não são terroristas? Serão jogados em Guantánamo? Legal.

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Uma senhora de 90 anos se matou depois de ser despejada de sua casa, o único imóvel que tinha e cujas prestações estavam atrasadas. Isso aconteceu no país que se diz defensor mundial da democracia. Lei para todos. É... mais ou menos, né?

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Marta Suplicy perdeu a campanha e João Santana assumiu a culpa. Marketeiro que é bom, ganha muito bem para isso mesmo.

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Justiça funciona assim: se eu perder uma ação para um ex-funcionário, eu tenho que pagar rápido, senão me encrenco de várias formas. Mas se eu ganhar uma ação contra a extinta TV Manchete, os antigos donos alegam que não podem pagar e pronto, fica por isso mesmo. E com o toco que ganha, a Justiça recebe uma transfusão de córnea?

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No interior de Minas, um candidato a prefeito distribuiu milhares de camisas amarelas no dia da eleição. Avisada por opositores, a Polícia Militar disse que não iria agir. "A gente não se mete com política", avisou o plantonista. Beleza.

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Quando o preço de uma matéria-prima sobe, os produtos derivado dela sofrem reajuste de preço - sempre para cima. Quando o preço da matéria-prima desce, não há reajuste dos produtos, e ninguém faz nada a respeito... Alguém explica?

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O limite de velocidade dos veículos poderia ter 100% de eficácia se, ao invés de implantar radares em cada esquina, as autoridades (tão preocupadas com nossas vidas!) exigissem que as montadoras não fabricassem veículos com capacidade de velocidade acima da determinada por lei. Não?

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O governo se preocupa com o bem-estar da população. Tanto é verdade, que nos multa se não usarmos cinto de segurança, nos proíbe de fumar em ambientes fechados, nos prende se usarmos drogas ilícitas ou se formos flagrados fazendo sexo em ambiente público (mesmo que seja atrás da moita, escondidinhos de olhares curiosos). Por outro lado, estudiosos já detectaram o quanto o trabalho causa estresse. Por quê o governo não nos proíbe de trabalhar, então? Reivindico aposentadoria integral ao trabalhador estressado.

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Vou numa loja de CDs e encontro um CD infantil original por R$ 36,00, oito músicas. Vou numa banca de camelô e encontro o mesmo CD por R$ 3,00. E aí eu fico perguntando: como é que os caras têm a cara de pau de classificar a pirataria como crime e achar que isso vai resolver tudo? Não era mais fácil usar de justiça na elaboração do preço do produto?

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Alegação de um aluno universitário flagrado plagiando um texto para o seu TCC: "eu cheguei à mesma conclusão do autor (o plagiado), por isso, não se pode dizer que eu plageei o cara. Foi um caso de coincidência de idéias". Aham.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Outro Mundo

Dorme, criança, dorme Que o sono irá te alimentar
E os sonhos te trarão o riso
Sem vergonhas ou medos ou remorsos
E irá te afastar um pouco dessa vida
Em que os pesadelos te apanham de olhos abertos
Em que te negam as asas de Ícaro
Embora te empurrem penhasco abaixo.
Dorme, dorme, meu bebê
Pois a vida irá te ensinar que o sono
É a cura para o corpo cansado,
A recompensa do dia-a-dia
Para culpados e inocentes
(Todos iguais antes das cinzas eternas)
O Deus do Esquecimento
Teu momento mais íntimo de privacidade.
Fecha esses olhinhos, menininha,
E desliza para um mundo mágico
Onde não exista abandono nem exploração
Onde sobrem motivos para risos, gargalhadas,
Onde quem já foi pode nos visitar de novo
Abrandando o desespero da saudade
E quem nunca mereceu ter nascido
Jamais poderá ser concebido.
Adormece em meus braços, querida,
Sinta-se protegida hoje e sempre
Para enfrentar as agruras desse mundo
Ou para voar em tua rica imaginação
Ou fazer qualquer coisa que queira
Com a autorização de tua consciência.
Sonhe, querida, sonhe e viva teu sonho.
E saiba que nenhum pesadelo é eterno.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Fins

As pegadas ensinam o caminho a seguir
Os mesmos caminhos, outros pés,
Um guia, ao menos.
Um guia de pés tortos,
De passos hesitantes
(Como os meus nesse instante)
De quem segue apenas outros passos
E outros pés, ansiosos e perdidos pés,
Que deixam seus rastros, e seguem rastros
Porque, afinal, o caminho nunca deixa de ser o mesmo
E, no fundo,
Isso não faz a mínima diferença.
Pés tortos em estradas erradas
Mente perdida em rumo incerto
E eu a seguir, os passos,
Orgulhosa de meu rastro
Apesar de saber apenas seguir outros pés...

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

O Pastor


Era uma pessoa boa, decente, inatingível, forte. Um coração do tamanho de seu senso de justiça: imenso. Dele não se esperava uma agressão, uma ironia, uma pitada de mau humor que fosse. Tudo era "bom dia", "posso ajudar em alguma coisa?"; malícia passava muito longe daquela alma que, de tão mansa, podia ser confundida com subordinada. E podia mesmo, porque Jorge se posicionava como um subordinado manso diante de qualquer ser vivo.
Era tão bom, tão manso, tão subordinado, que ninguém tinha coragem de tirar proveito dele. Ninguém pedia nada a ele. Ninguém cobrava nada. Jorge sabia disso, e exatamente por isso ele se esmerava naquela fantasia idiota para aqueles idiotas do bairro.
Não, Jorge não era nada bom. A malícia era tanta que ele não deixava que ninguém a percebesse. De fato, não agredia ninguém e nem falava rispidamente: não precisava nunca, assim como não precisava demonstrar seu mau humor para aqueles pobres imbecis miseráveis que nem sabiam distinguir um sorriso amável de um sorriso irônico. Descontava toda a sua frustração (e quem não a tem?) naquela cidadezinha para qual ia a cada 15 dias a pretexto de cuidar de sua pobre e velha mãe - na verdade, uma dúzia de prostitutas e muitas garrafas de cachaça para o tal de Damásio.
O que Jorge queria, afinal? Para que se dar a tanto trabalho, disfarçando-se, vivendo uma fantasia sem necessidade? Nem ele tinha a resposta. É que a maioria das coisas que a gente faz não tem mesmo resposta alguma, embora a gente viva inventando umas para satisfazer aos outros. Jorge era assim.
Afinal de contas, quem tem alguma coisa a ver com isso?

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Passional


Da última vez em que o vi,
O sangue já não corria.
A face pálida, a carne fria.
Aqueles olhos secos, medonhos.
Não reconheci aquela expressão,
Nem ela me agradou, tampouco.
Senti que seria o fim, dessa vez:
Aquela expressão... os olhos... ele, frio.
Deu medo. Quis chorar.
Pensei em correr, mas lembrei do quanto sou covarde.
Pensei em brigar, mas sou covarde.
Imaginei matar, mas sou covarde.
Tudo para arrancar aquela impressão medonha
Dos olhos gelados e pálidos a espreitar-me
Como quem arranca uma verdade à força
Das entranhas da pessoa em que se confia
(Ou que se diz confiar).
Uma última verdade: a que não existe.
Não quero verdade nenhuma sendo arrancada de mim;
Não tenho verdades a oferecer, só mentiras.
Foi a última vez que o vi.
Depois disso, caí no chão.
Morta, de corpo e alma.
Morta.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Dia de João

17 de outubro, e cá estou a cumprir a minha missão de escrever sobre meu Peter Pan familiar, que hoje completa 29 aninhos. Um menino, ainda! E já tem outro menino!
Todas as vezes que escrevo sobre João estou sinceramente surpreendida pelo tanto que ele amadureceu. No entanto, pensando bem, que amadurecimento danado é esse que ele tem a cada ano que se passa, e que nunca é o suficiente para que eu deixe de achá-lo um garoto ainda? Coisa de irmãe, creio eu. Meu garoto! Tão lindo, tão fofo, tão... cut-cut!
Liguei ontem para ele, antecipando meus votos de felicidade e matando um pouco a saudade. Não consegui conversar, não sei como ele está, não conseguiu me contar (ou ouvir) novidade alguma. Ficava só no "que bom, maninha, que você ligou! Que saudade! Quando você vem? Que saudade! Te amo, visse?" e dengos tais. Ele é assim mesmo, fofo, doce, amoroso. Safado também, que você não me engana, viu?
O que eu posso falar para você hoje, dia de teu aniversário? Que te adoro, que te admiro, e que nunca deixei de ter vontade de puxar tuas orelhas - pelo menos um puxão por dia, pra ver se você cria juízo. Mas que também morro de medo de você criar mesmo juízo, de você virar adulto de verdade, desses que a gente vê na rua trabalhando todo dia, caretinha, sabe? Sou meio cismada com esse tipo de gente. Não merece confiança.
João, eu te amo. E continuo (sempre) na torcida para que você continue feliz, para que você tenha sorte, tenha muitas alegrias e tenha a força necessária para viver bem, com coragem para suportar as dificuldades da rotina e os sustos que a vida sempre nos prega. Que você sempre acredite em você mesmo, e que continue sendo um cara legal, bacana, divertido. Que consiga, sozinho, se manter bem e firme, mas que prefira fazê-lo em companhia agradável. E que aprenda a olhar para o chão (mais precisamente consiga enxergar os buracos da rua) principalmente quando estiver andando de moto, porque ninguém aguenta mais ver você com o braço ou a perna engessada porque caiu da moto, né, João?
Maninho, saúde, sorte e força.
Te amo. "De com força".

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Contradança


Ensaiava para o baile enquanto sua mãe matava um frango no terreiro. Dançava ao som mudo de um Mozart surdo, cega e transtornada pela paixão que viria a sentir quando finalmente encontrasse um rapaz, o seu rapaz, e seria naquela noite. Sabia disso, com a mesma certeza que tinha de que a sua cidade compreendia o mundo inteirinho - sua cidade era o mundo, e nada mais restava. Tinha certeza disso, sabia disso.
De repente estava num imenso salão chiquérrimo, lindo, cheio de pessoas bonitas, bem vestidas e arrumadas, cheio de moças (como ela) cheias de certeza de encontrar o seu rapaz e naquela noite e de serem felizes para sempre hoje. O frango jazia morto no terreiro molhado pelo suor derramado da face de sua mãe, a pobrezinha da sua mãe. Seria servido ao molho pardo.
A mãe pede para que ela lhe traga a chaleira quente que apita do fogão de lenha anunciando que sim, a água estava a ponto de ser utilizada. Ela escuta - à mãe e ao grito da água fervente - mas aquilo faz parte de uma realidade paralela que não lhe interessa. Então os berros de sua mãe misturam-se à música imaginária e ela tropeça no pé do cavalheiro, e erra e cora, e pede desculpas de cabeça baixa piscando os olhinhos com o charme que uma tia sua ensinara a fazer. Corre para o espelho da sala e se certifica de que piscou certinho mesmo, a ponto de parecer meiga ao seu rapaz. Sim, está tudo certo. "Boa menina", diz para si mesma. E volta aos braços de seu para sempre amado.
O dia corre sem pressa, a manhã está lenta, e ela está bailando há não mais que dez minutos. Rodopia segurando com as pontas dos dedos da mão direita a longa saia que será vestida somente à noite, enquanto a sutil mão esquerda se apóia delicadamente no ombro de seu par. Olhos semicerrados, sorriso estudado nos lábios, só a ponta dos pés tocando o chão: é assim que treina a moça; "é assim que deve ser", pensa, e está razoavelmente certa. Os moços gostam da delicadeza feminina, gosta de serem os machos a protegerem suas fêmeas indefesas. Gostam de serem tocados com delicadeza por uma jovem e bela dama com quem se casarão e terão muitos filhos. Foi assim que ensinaram a ela. E ela dança e dança.
O frango começa a ser depenado. A mãe cumpre essa tarefa do mesmo jeito que varre o terreiro todas as manhãs, ou que busca a água na cacimba várias vezes ao dia. É uma tarefa a mais, e o suor pinga naquela manhã quente, e nada mais há de se falar sobre isso. O frango vai ficar gostoso para o almoço, a mãe cozinha bem. Quase tão bem quanto a filha baila, ou quanto ela pensa que baila tão bem. Nunca pisou no pé de um parceiro, mesmo a despeito de nunca ter tido um parceiro real - o real, para ela, não passa daquele lindo salão cheio de seus rapazes seus, só seus, e dentre os quais ela irá escolher o afortunado, um dia. Ao seu gosto. E é hoje.
Está flutuando junto de seu sempre amado quando sente um puxão. Algo a está trazendo para a outra realidade, aquela paralela, a insignificante. É uma mão. É a mãe. A mesma que tava matando um frango, a mão suja da mãe. Toca seus cabelos, mas não sabe ser gentil como ela é com o seu príncipe. A mãe com a mão é bruta, e arranca-lhe um tufo de cabelos. O seu amado se assusta e sai correndo, deixando-a só com o frango morto impregnado ali naquela mão. Ela ainda lança um último olhar para o seu rapaz que já está muito, muito longe. Inalcançável. Já era.
E aquela mãe a guia para um buraco negro, um espaço nebuloso entre a sua realidade cor-de-rosa e a sua outra realidade cor-de-sangue-de-frango. Ainda não entende bem o que está acontecendo; pensa se seu rapaz verdadeiro fugiria como aquele traste fugiu diante do perigo da mão da mãe. E fica pensando nisso direto, enquanto suas mãos são mergulhadas com rudeza nas entranhas do frango. A música ainda soa em seus ouvidos, mas está confusa. A voz da mãe é mais alta, mais forte: "limpa bem esse frango, viu? Senão dou-lhe outra surra". Não, surra não. Tudo menos isso. Surra não. Odeia a mãe, e odeia ainda mais a mão da mãe, essa mão que a tira de sua vida real e lhe traz para aquela outra vida desgraçada, infeliz e sem graça. A vida de sua mãe. Não a sua: a de sua mãe.
A música pára de soar.
Amanhã, quem sabe.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Onde fica o glamour? E o banheiro?


Falo tão mal de empresas jornalísticas e seus profissionais que às vezes até esqueço que sou uma.

Já atuei em todos os meios de comunicação e em quase todos os setores, até que enchi definitivamente o saco de ter que sempre estar atenta a tudo que acontece, cumprir pautas quase sempre desinteressantes, dar plantões nos finais de semana e feriados, ter que fazer 3, 4, 5, 6 matérias por dia tendo que checar tudo, ouvir 214 lados (curiosamente, o lado "atacado" quase nunca está acessível na primeira tentativa) e ainda dar uma cara de imparcialidade ao material que será lido por gregos e troianos. Ah, tem que satisfazê-los também, tanto os gregos quanto os troianos.

Erro? Nem pensar, pois se ele acontece nossa vida vira um inferno - além da gente ter que aguentar as brincadeiras dos colegas e levar esporro dos 800 chefes existentes em cada redação, a gente ainda tem que aguentar um monte de leitores telefonando dias a fio para conversar com o repórter que cometeu o erro. Alguns leitores reclamam em tom professoral, o que é muito chato. Outros reclamam no tom de "tia" primária, que é mais chato ainda. Há os que dão esporro dizendo que o erro é imperdoável e que vão deixar de assinar o jornal por causa dele. E tem ainda os que nos afloram o instinto assassino: são os advogados, os que confundem metralhadora com ameaça de processo.

Lembrei disso porque ontem escutei a conversa de duas senhoras no banco da praça (sim, estou com folga suficiente para ir tomar sorvete no banco da praça no meio da tarde e escutar a conversa dos outros - o que significa que não estou mais trabalhando na mídia). As duas estavam espinafrando uma repórter da cidade que cometeu um assassinato à gramática. Pena que eu não consegui saber que erro tão grotesco foi esse. As mulheres só falavam o nome do jornal, a edição e o nome da repórter, mas não o erro, apesar de estarem falando do erro. Não comprei o jornal porque fiz promessa: enquanto não ganhar na megasena, não gasto um centavo para comprar um jornal, seguindo o conselho de Raulzito.

As mulheres vieram com o discurso fácil de que repórter tem que saber o português perfeito e não pode se dar ao luxo do erro. Concordo, mas... quem nunca cometeu um erro de português que atire a primeira pedra. Eu não posso, já cometi e continuo a cometer. Mas o mais grosseiro de toda a minha vida aconteceu quando eu trabalhava no Jornal do Commercio, em 92/93. Não sei por que cargas d´água eu usei a palavra "ossada" em vez de "alçada". Meu rosto fica vermelho até hoje quando lembro disso. Sei, e naquele tempo eu já sabia, a diferença de significado entre as duas, mas errei, e priu. Lembro que meu editor pediu explicação para o erro, e eu caí na gargalhada dizendo que a única explicação é que eu era burra mesmo. Merda feita, esporros e gozações tomadas, estou livre do pecado (quando é útil, lembro que fui batizada e crismada).

Quando dá saudade daqueles tempos (sim, tenho minha porção masô), lembro dos carnavais e aí a saudade passa ligeirinho. Vocês conseguem imaginar o que é ter que ficar de plantão e - pior que o plantão - ter que fazer matérias de carnaval? Entrevistar folião (o que é que um folião pode dizer de interessante, meus deuses?), falar que o bloco tal saiu com atraso mas arrastou multidão, que a polícia quebrou o pau num adolescente porque estava com lança-perfume nas mãos... Ah, que carnavais jogados fora!

Quando a gente é repórter fica insensível em muitos momentos. Como na noite em que Chico Science morreu. Adorava Chico Science. Era uma noite de domingo de carnaval, eu fiquei de plantão o sábado e o domingo todinho e, finalmente, aquele inferno tinha chegado ao fim. Peguei meu carro e fui para a casa de minha mãe, em Olinda, onde passaria o resto do carnaval. Vi o acidente quando passava o viaduto da Marinha, mas nem dei bola. A Polícia tava chegando quando eu passei, e tinha um monte de curiosos. Chego em casa, estaciono o carro, entro e escuto aquela musiquinha de terror da Globo quando tem uma notícia extraordinária. Escutei a notícia da morte de Chico Science ao mesmo tempo em que meu celular tocou. Era o editor. Eu tinha que voltar para a TV por causa do acidente. Como disse, eu adorava Chico Science.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Malcriada

O
Silêncio
De
Quem
Gosto
É
Razão
De
Mágoa
.
.
.
Meu
Silêncio
Para
Quem
Gostei
É
Óbvio
(ou
não?)

domingo, 5 de outubro de 2008

Mais uma bela vitória

Ganhamos. O meu candidato é vitorioso. Uuuuuuuuuh, que felicidade!
Numa hora dessas, não penso nas dificuldades, nas decepções e das rasteiras tão naturais em uma campanha eleitoral. Numa hora dessas esqueço que estive fora de casa por quatro longos meses, trabalhando de domingo a domingo. Só lembro que fiz o que me deixaram fazer, briguei com quem tinha que brigar, abracei quem precisava ou quis abraçar. Só lembro que meu candidato é, sem dúvida nenhuma, a melhor opção que se apresenta - e que eu o ajudei a vencer, eu e mais um batalhão de gente que fez de tudo para que o nosso candidato pudesse continuar no governo. Posso até ser piegas, mas a emoção da vitória compensa, quando a gente acredita que está fazendo o melhor. E eu acredito, sinceramente.
Estou gritando nas ruas desde as cinco horas da tarde. Parei há meia hora, ou seja, às dez horas da noite. Cantei as músicas dessa campanha, cantei as músicas de campanhas passadas do Lula. Gritei o nome de meu candidato um zilhão de vezes toda vez que um carro com adesivo passava por perto de mim. E gritei um "chupa, Marcão! Fudeu-se!" toda vez que um carro com adesivo do adversário passava. Pronocação idiota, eu sei. Mas faz um bem...!
Ainda tenho garganta para gritar mais, assim como tenho fígado para beber mais e tenho braço para balançar mais a bandeira vermelha imensa do PT. É um momento em que choro de alegria, me abraço com o primeiro que estiver passando na minha frente, pulo como um folião. É uma alegria imensa, imensa. Talvez seja difícil de entender para quem não gosta de política. Mas este é meu vício, um dos mais antigos que tenho. Choro mesmo, sem vergonha. De alegria. E choraria muito de tristeza se o resultado fosse diferente.
Estou com sapato vermelho, calça preta, blusa vermelha com listras brancas (sou Santa Cruz, sempre). O cabelo está emaranhado, a roupa está molhada, a garganta tá doendo, e eu ainda tenho que trabalhar hoje. Não importa, hoje é um dia muito especial, do tipo que só ocorre de dois em dois anos. Tenho que comemorar mesmo, tenho esse direito. E que venha o próximo pleito.
Ah, não podia deixar de mencionar um assunto aqui: dinheiro. Tradicionalmente, campanha é um trabalho atrativo para quem gosta de ganhar dinheiro. Nada contra. No entanto, comigo é um pouquinho só diferente. Eu troco o dinheiro pelo prazer de trabalhar na campanha por alguém que acredito. Claro que sou remunerada, mas nunca peço tanto quanto na verdade eu mereço ou poderia exigir. Como já disse, troco parte da remuneração pelo prazer. Esse é meu grande barato. E quem não acredita quando eu digo isso, é porque simplesmente não me conhece.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Minha mãe me ensinou!...


Amei esse texto que recebi por email. Não tenho menor idéia do autor.

Minha mãe me ensinou!...
Minha mãe ensinou a VALORIZAR O SORRISO...
'ME RESPONDE DE NOVO E EU TE ARREBENTO OS DENTES!'
Minha mãe me ensinou a RETIDÃO.
' EU TE AJEITO NEM QUE SEJA NA PANCADA!'
Minha mãe me ensinou a DAR VALOR AO TRABALHO DOS OUTROS...
'SE VOCÊ E SEU IRMÃO QUEREM SE MATAR, VÃO PRA FORA. ACABEI DE LIMPAR A CASA!'
Minha mãe me ensinou LÓGICA E HIERARQUIA...
'PORQUE EU DIGO QUE É ASSIM! PONTO FINAL! QUEM É QUE MANDA AQUI?'
Minha mãe me ensinou o que é MOTIVAÇÃO...
'CONTINUA CHORANDO QUE EU VOU TE DAR UMA RAZÃO VERDADEIRA PARA VC CHORAR!'
Minha mãe me ensinou a CONTRADIÇÃO...
'FECHA A BOCA E COME!'
Minha Mãe me ensinou sobre ANTECIPAÇÃO...
'ESPERA SÓ ATÉ SEU PAI CHEGAR!'
Minha Mãe me ensinou sobre PACIÊNCIA...
'CALMA!.. QUANDO CHEGARMOS EM CASA VOCÊ VAI VER SÓ..'.
Minha Mãe me ensinou a ENFRENTAR OS DESAFIOS...
'OLHE PARA MIM! RESPONDA QUANDO EU TE FIZER UMA PERGUNTA!'
Minha Mãe me ensinou sobre RACIOCÍNIO LÓGICO...
'SE VOCÊ CAIR DESSA ÁRVORE VAI QUEBRAR O PESCOÇO E EU VOU TE DAR UMA SURRA!'
Minha Mãe me ensinou MEDICINA...
'PÁRA DE FICAR VESGO, MENINO! PODE BATER UM VENTO E VOCÊ VAI FICAR ASSIM PARA SEMPRE.'
Minha Mãe me ensinou sobre o REINO ANIMAL...
'SE VOCÊ NÃO COMER ESSAS VERDURAS, OS BICHOS DA SUA BARRIGA VÃO COMER VOCÊ!'
Minha Mãe me ensinou sobre SEXO...
'...E COMO VOCÊ ACHA QUE VOCÊ NASCEU?'
Minha Mãe me ensinou sobre GENÉTICA...
'VOCÊ É IGUALZINHO AO SEU PAI!'

Minha Mãe me ensinou sobre minhas RAÍZES...
'TÁ PENSANDO QUE NASCEU DE FAMÍLIA RICA É?'
Minha Mãe me ensinou sobre a SABEDORIA DE IDADE...
'QUANDO VOCÊ TIVER A MINHA IDADE, VOCÊ VAI ENTENDER.'
Minha Mãe me ensinou sobre JUSTIÇA...
'UM DIA VOCÊ TERÁ SEUS FILHOS, E EU ESPERO ELES FAÇAM PRÁ VOCÊ O MESMO QUE VOCÊ FAZ PRA MIM! AÍ VOCÊ VAI VER O QUE É BOM!'
Minha mãe me ensinou RELIGIÃO...
'MELHOR REZAR PARA ESSA MANCHA SAIR DO TAPETE!'
Minha mãe me ensinou o BEIJO DE ESQUIMÓ...
'SE RABISCAR DE NOVO, EU ESFREGO SEU NARIZ NA PAREDE!'
Minha mãe me ensinou CONTORCIONISMO...
'OLHA SÓ ESSA ORELHA! QUE NOJO!'
Minha mãe me ensinou DETERMINAÇÃO..
'VAI FICAR AÍ SENTADO ATÉ COMER TODA COMIDA!'
Minha mãe me ensinou habilidades como VENTRÍLOQUO...
'NÃO RESMUNGUE! CALA ESSA BOCA E ME DIGA POR QUE É QUE VOCÊ FEZ ISSO?'
Minha mãe me ensinou a SER OBJETIVO...
'EU TE AJEITO NUMA PANCADA SÓ!'
Minha mãe me ensinou a ESCUTAR ....
'SE VOCÊ NÃO ABAIXAR O VOLUME, EU VOU AÍ E QUEBRO ESSE RÁDIO!'
Minha mãe me ensinou a TER GOSTO PELOS ESTUDOS..
'SE EU FOR AÍ E VOCÊ NÃO TIVER TERMINADO ESSA LIÇÃO, VOCÊ JÁ SABE!..'
Minha mãe me ajudou na COORDENAÇÃO MOTORA...
'AJUNTA AGORA ESSES BRINQUEDOS! PEGA UM POR UM!!'
Minha mãe me ensinou os NÚMEROS...
VOU CONTAR ATÉ DEZ. SE ESSE VASO NÃO APARECER VOCÊ LEVA UMA SURRA!'
Brigadão Mãe !!!

domingo, 21 de setembro de 2008

Bandeira Vermelha

Sou petista. Assumo meus vícios.
Estamos vivendo uma eleição muito diferente. Uma eleição sem partidos, uma eleição em tons pastéis. Somente os perdidos estão se dando ao luxo de falar mal dos opositores. Os possíveis vencedores ficam numa postura chata de "não sei do que estão falando, não é comigo, eu não me rebaixo" - somente na frente da tela, claro. Acabou aquela história de "vote em fulano porque ele é PT", ou de outra legenda qualquer. Os candidatos estão escondendo suas legendas. É propaganda eleitoral para cegos: sem legenda. Quanta diferença...
Não costumo ser saudosista, mas não dá para ser diferente agora, em se tratando de campanha. Dá um desgosto danado ter que fazer essa campanha assim, com cheiro de água, com gosto de água, com jeito de água com açúcar. Campanha-padrão: você formula na puta que pariu e usa a mesma em 857 municípios que dá na mesma, e todo mundo gosta. Sem cara própria, sem garra, sem tesão, sem militância. Eca. Fosse assim, era melhor resumir essa porcaria a um debate semanal temático para todos os candidatos e só.
Onde estou trabalhando, por exemplo. Nenhum candidato assume sua legenda com orgulho. Elas entram apenas por obrigação nas peças publicitárias, muito pequenininhas, coitadas, encolhidas num canto quase junto do CNPJ do candidato e da gráfica. A estrela está super-discreta, o tucano está completamente extinto, e o sol DEMoníaco está curiosamente uruguaio. Vermelho, nem pensar. Nem nas peças do candidato petista nem do candidato comunista: nada de vermelho. Vermelho passou a ser proibido, voltou a ser a cor da anarquia, a cor da juventude (e essa campanha não é jovem), a cor de quem come criancinha e esquece um fio de sangue escorrendo no canto da boca. Não sei que diabos deu nos publicitários, mas parece que todos combinaram pelo fim do vermelho. Nem roupa vermelha os candidatos podem mais usar. A cor da moda e da publicidade agora é azul. Azul. Tudo azul com bolinhas brancas. Azul, céu de brigadeiro. Azul serenidade. Eca.
Neste final de semana eu surtei. Quem quiser que se esconda, mas eu sou é vermelha. Como não tinha mais esse tipo de farda, comprei tudo vermelho, da boina ao tênis. Roubei uma das pouquíssimas bandeiras vermelhas que encontrei pelo comitê. Fiz de minha garganta uma buzina e ela ficou rouca de tanto gritar o nome do meu candidato e também desaforos aos oponentes que passavam. Queria mesmo provocar, e provoquei. E acho que os oponentes viram que eu não tava pra brincadeira, que tava a fim de quebrar o pau da bandeirona na cabeça de um. Provoquei, provoquei, e ninguém veio tomar satisfação. Irada, invadi o QG inimigo empunhando minha bandeira: fui ao café da praça, tradicional ponto da elite DEMoníaca. Fui lá, sentei, deixei minha bandeira erguida e pedi um chopp. Os quatro velhinhos que estavam lá me olharam com medo. Juro que vi medo naqueles olhos embaçados. Encarei-os. Meu queixo os desafiou para uma gracinha qualquer, uma piadinha, uma zombaria. Nada, não veio nada. Pagaram a conta e foram embora.
Essa merda de campanha higiênica. EU QUERO DE VOLTA O MEU PT!

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Apagando mais uma velhinha

Juro que procurei uma foto minha, mas não tem nenhuma!
Só encontrei essa da tatoo. Com vocês, minha fadinha Sá.

Há um ano e quinze dias eu iniciei esse blog. Comecei contando o quanto me acho sortuda. Gente, eu tinha tudo para dar errado na vida, e dei mesmo. Mas podia dar errado no mau sentido, e daí me livrei. Gosto da vida que levo, do jeito que a encaro. Sou tão narcisista que amo meu principal defeito, segundo os outros: minha língua afiada - ou, como eu prefiro dizer, meu excesso de sinceridade que exponho assim, de um modo meio irônico e cínico demais para as pobres almas que a experimentam. Gosto de esportes, e o meu predileto é tirar onda da cara dos outros.
Nesses 300 e tantos dias, tratei algumas vezes de política. É mais um vício meu, quase uma cachaça. Digo quase porque, por incrível que pareça, a ressaca da cachaça é maior que a de uma decepção política. As duas ressacas são esperadas, mas, sendo pragmática (palavra da moda, né companheiros esquerdistas?), a da cachaça me dói mais. Além disso, detesto vomitar, detesto dor de cabeça, e detesto ficar estirada na cama morrendo de medo que alguém chegue acendendo a luz ou falando um tantinho mais alto. Ressaca política não dá nada disso. E ainda por cima, demora dois anos para acontecer. Já a de cachaça é muito mais frequente.
Criei o blog - acho que este é o segundo ou terceiro, nem sei mais - para escrever o que me desse na telha e, de rebote, conhecer outras pessoas que só o universo virtual possibilitaria. Consegui. Através do meu ninho conheci gente muito bacana. Algumas pessoas queridas eu poderia até ter conhecido por outras vias, já que compartilhamos de um amigo em comum, o Dimas, e de uma paixão, o Santa Cruz. A Val também fez outra linha de amizade brotar, e por coincidência, ela também é de Olinda e também apaixonada pelo Santa. Mas tem um monte de gente boa que eu só conheço virtualmente, e o blog foi a chance perfeita desses encontros. Valeu a pena, está valendo a pena.
A minha inquietude me leva a uma diversificação maravilhosa de tudo. Morei em vários lugares, conheci vários tipos de pessoas, fiz amizades com tudo quanto é gente, e me orgulho disso. O blog é também uma forma de meus amigos, que hoje estão mais afastados, terem notícia minhas, descobrirem se estou bem ou mal, se estou calma ou com o foda-se ligado. Sei disso porque quando estou demonstrando que liguei o foda-se, nenhum deles me telefona: contentam-se com um prudente e distante e-mail. São inteligentes, os meus amigos.
Então, pra resumir, queria somente acrescentar que o blog é uma válvula de escape para mim, uma maravilhosa válvula de escape. Afinal, como está descrito aqui, "este aqui é um espaço para dizer, retratar, revelar. Espero criar um hábito e, quem sabe, também amigos".
Missão cumprida - e comprida, porque continua.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Culpa

Na inocência do silêncio
Mora o medo da razão
Que se cala, prudente,
E aguenta mais um açoite
Mentindo a si mesma com subterfúgios
Que desculpam o crime
Mas não o explicam
(E como poderiam?)
Retraçam as linhas do tear
Dão voltas em torno do mundo
Vão e vêm, vão e vêm
Sem que cheguem a lugar algum
Os tais subterfúgios
Que nossa razão contaminada nos oferece,
Tatuada de apelos cristãos,
Para que possamos aguentar e perdoar os açoites
Que simplesmente não têm explicação
Nem razão de ser.
Resta o silêncio...
...E o medo.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Tesouro

Longe de minhas misérias
Quase nem me reconheço:
Um falar virando a cabeça para a esquerda,
Olhos sorridentes, boca lacrimejante,
Um jeito firme de encarar
Postura ereta, forte.
Longe de minhas misérias
Eu consigo ser eu mesma
Embora me desconheça, às vezes,
E sequer isso me causa estranheza.
E embora feliz,
Momentaneamente livre, completa,
Ainda sinto falta delas,
As minhas misérias.
É que, longe das minhas misérias,
As encontro no outro, nos outros,
Todos miseráveis,
Tão ou mais que eu:
Eis minha maior miséria.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Amigos


Foi tão pouco, único, rápido,
Mal passou de brincadeira:
Coisa de crianças
De imaginação sobejada
E indolência maior ainda.
Coisa de impulso, leve, diáfana
Nem maior nem menor que o ato
Ou o riso que o seguiu,
Com olhos já quase fechados
E corpo deslumbrado com a maciez do arrimo.
Algo inconsequente,
Tranquilo, satisfatório.
E só.
É só disso que estamos falando:
Simplicidade, gosto, prazer.

Se eu soubesse que a amizade estava em jogo,
Não teria deitado na cama.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

O microfone de lapela

- E essa orelha tão grande, lobo mau?
- É pra te ouvir melhor... (nem precisa da lapela!)

O rapaz que faz a tradução de textos para libras está no estúdio prestes a fazer a gravação. Da mesma forma que um locutor profissional exercita a musculatura da face fazendo caretas horríveis, o tradutor de libras fica estalando irritantemente os dedos, largando as mãos como se as pudessem soltar dos punhos e batendo asas que nem galinha.
Tudo pronto, luz, câmera e... pára, pára tudo. Chega um bisbilhoteiro, que por essas catástrofes da vida que ninguém explica é nosso patrão, e escuta algo que era para ser piada, e até sem graça, de um colega: "não esquece da lapela!" (microfone pequeno que fica preso à camisa do entrevistado). Obviamente, nenhum profissional deu bola. Mas o patrão...

- Ana, cadê a lapela? Não é possível, o rapaz tá sem lapela! Vai gravar sem lapela? Providencia a lapela, rápido.
- Sério que você quer colocar lapela no tradutor de libras?
- Claro! E ele vai gravar sem lapela? Ninguém vai escutar nada, vai ficar sem som!
- Mas ele é tradutor de libras, tá ligado?
- Sim, mas e a lapela? Rápido!
- Preste atenção: se você quiser, boto a lapela. Só não vai adiantar nada.
- É? E por quê, pode me explicar?
- Por que ele tá fazendo tradução de libras.
- E daí? Se não tiver som, ele vai traduzir o quê pra quem?
- Ele vai traduzir a fala para a linguagem dos surdos, aliás, ele só está aqui no estúdio numa hora dessas porque ele tem que traduzir tudo o que o programa fala para os surdos entenderem. Entendeu?
- Mas e a lape... aaaaaaaaaaahhhhhhhhh....

Finalmente caiu a ficha. A gargalhada começou com a minha segunda resposta, e demorou mais uns dois minutos.
A gente trabalha pra caramba, mas se diverte na mesma proporção. Taí a explicação do vício em campanhas.
Ah, até hoje o tal patrão é apelidado de lapela. Bem-feito.

Decrepititie

Mascarar a ilusão

É próprio da doçura

Da simplicidade da crença

E da podridão dos dejetos

Cada vez mais inumanos

Por vontade própria

(Porém com culpas, e quantas!)

Sem necessidade outra senão

A de iludir-se

Somente para viver.

Ah, máscara...

Onde estás?

Minha face te aguarda

Angustiada.

sábado, 6 de setembro de 2008

Descoberta


Queria saber te decifrar

Do gesto ao silêncio

Quando há náusea e

Quando há gozo

No escuro de meu quarto.

Saber de tuas vontades

Tuas virtudes, tuas tolices

Teus significados

Teus símbolos

Teu gosto

Teus sentidos

O tanto de mim que há em ti,

O pouco de ti que abandonastes em mim

Inexorável, lânguido.

Por um minuto apenas

Conhecer-te profundamente.

Por um minuto apenas

Eu te amaria eternamente

Intensamente, sem segredo

- E o fim do mistério

Me traria de volta à razão

E eu te abandonaria.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Natural


A vida não tem sentido,
Nem norte, nem direção,
Nem linhas predestinadas
Nem aforismos secretos.
Os significados estão em nós
- E é apenas isso,
Creia.
E viva
(leve).


segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Antes que me esqueça...


Não aguento mais ser chamada de intransigente. Não sou! Impaciente sim, talvez. Intransigente não.
Eu vejo uma coisa errada e, se isso me incomodar (viu? Não quero consertar o mundo, só o que está ao meu redor), comento com delicadeza e/ou humor que a coisa poderia ser assim ou assado. Se continua errado, sou irônica no comentário. Da terceira vez, despacho. Resolvo. Se eu puder sair, eu saio; se puder quebrar, eu quebro; se puder terminar, termino. E priu.
Intransigência? Não. Eu só não admito algo que me incomode. Se um amigo meu quiser usar cueca vermelha de bolinha branca, eu vou achar que não tenho nada com isso, já que gosto é de cada um, o problema (se é que existe problema!) é dele. Mas se ele acha engraçadinho conversar comigo me beliscando o braço, ah, não. Aí não. Eu não gosto de beliscão, e daí? Se eu não admitir ser beliscada significa que sou intransigente?
No trabalho também é assim. Detesto ficar reclamando das mesmas coisas. Se algo está errado, quero consertar o mais rápido possível. Se o erro prejudica o meu trabalho, vou brigar com deus e o mundo para que seja consertado. E se eu tiver que brigar umas cinco vezes pela mesma coisa, aí chuto o balde e vou embora. Instransigente é a mãe. Só não sou submissa, resignada.
Nas relações, a mesma coisa. O namorado gagueja, e daí? O cabelo tá mal cortado, e daí? Bebe, e daí? Dá vexame toda vez que bebe... aí eu entro. Aí sou eu quem tá de lado. Hum hum, isso não. Nem a pau, juvenal. Nem fudendo, literalmente. Fez a primeira, toma esporro (obviamente, quando se curar da bebedeira). Fez a segunda, dane-se. Se eu estiver muito apaixonadinha, o cabra ainda pode fazer uma terceira, mas aí eu não me responsabilizo pela integridade física do sujeito. E a quarta vez ele não faz. Ao meu lado, não.
Eu tenho duas medidas de avaliação: a conta de três e o tempo determinado. Se alguém me sacaneia três vezes, é que eu sou mesmo uma otária. Se eu não corrijo algo que me incomoda em tantos dias ou meses, eu jogo fora, descarto, findo.
Tudo isso para explicar (aos poucos que estão sabendo das novidades) o que é essa minha facilidade de mandar patrão à merda. Juro: não é intransigência. É inconformismo. Mas, de qualquer forma, se quiser continuar me julgando intransigente, problema seu.
E antes que eu me esqueça... vá!