quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Cartão de excelente festa


Feliz Natal a todos.
E se vocês encontrarem por aí um cara de barba branca, vestido com roupa pesada de cor vermelha, bota e tudo o mais, gritando "hohohohoho" e dizendo que veio da neve... Bem... cada um acredita no que quer, né? Deixa pra lá.
Obrigada, e um feriadaço magnífico para todos.
Hohohoho...

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Debute


Em 2010 pretendo ter menos certezas
E cultivar paixão pela dúvida
Despertar o faro para os dois lados
Encontrar as razões de cada um
Ouvir os argumentos:
Lê-los nos olhos dos outros
E respeita-los,
Mesmo que ridículos ou inúteis.
Quero me importar ainda menos
Com temas que não me importam nada
E quero investigar mais a fundo
As causas das ações inumanas
Que todo humano pratica
E os motivos moribundos das leis
Feitas para não serem praticadas
Feitas para serem só castigo.
Em 2010 desejo que brote em mim
Nova onda de curiosidade e conhecimento
- Nova tentativa de compreensão –
Talvez um novo posicionamento no mundo
Percepções mais aguçadas e abertas
Explorações até intestinais.
O fim de um ciclo:
Uma readolescência.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Cara a Cara

O devaneio fenece

E volto a me ver no mundo efetivo

Aquele, sem segurança ou facilidade,

Sem espaços para o ser-eu

Habitado por marginais do sistema

E marginais ao sistema

Ou um ou outro, inefável.

O mundo do ter-que

A vida das máscaras

Os espantalhos embutidos

Palhaços sem caução

Arlequins ridículos e seus amores dramáticos

Prostrados por profissão.

A lei do ter-poder

Do parecer ao ser

Da nudez mental

Escondida em velhos hábitos

Eternos hábitos humilhantes

Malditos hábitos e habitantes.

O mundo efetivo

Movido a prazeres bizarros

A desprezo constitucional

A abandonos consagrados

A forças irreais, inexplicáveis,

A ações tão inumanas.

Desperto minhas aptidões

Constrangida pelas peças que já encenei

Nesse palco-formigueiro

E de olho nas máscaras de uso constante.

Escolho uma, visto, e escrevo.

O devaneio fenece.




domingo, 22 de novembro de 2009

Boleto Social

Em todo momento sou lembrada do preço de minhas escolhas.
É alto, como a qualquer pessoa.
A diferença é que sou minha maior credora
E não pechincho:
Pago cada centavo do aluguel dessa minha vida
(Meu maior medo é ter de levar a vida dos outros, por melhor que ela possa parecer...)

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Aos meus meninos

Mestre, aponte a rota
Dê o destino,
Pise o caminho
Siga reto em estradas curvas
Ande enquanto o presente for só presente
E corra quando o passado o perseguir
Veja a luz fora da órbita
Enxergue o porvir.
Machuque os pés em pedras macias
Alente-os em relva fresca
Descanse quando o corpo mandar
Erre entradas
Acerte os erros e aprenda com eles
Persiga o seu estradar
Esqueça da chegada
Que o bom do sonho é sonhar.
Mestre, feche seus olhes
Dê passos bambos, descuide-se
Permita-se cair rendido
Seja vergonhosamente humano
E animalescamente complexo
Planeje seus grandes passos
Mas deixe espaço para o improviso
E o provoque - quebre a rotina.
Cerque-se de sentimentos
Assim como de água e alimento
Deixe as tralhas no caminho
Para que um dia possam seguir seus rastros
Para livrar seus ombros de pesos inúteis
Para que os fantasmas não o assombrem.
E converse sempre consigo
- Nunca se esqueça de si.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Adaptação


Não entendo esses homens

Que estando tristes sorriem

E insatisfeitos se acomodam

Como se a vida assim exigisse

Como se não fosse opção

Como adestrados que são.

Não entendo essas pessoas

Que adoram o castigador

E mesmo em meio à dor

Oram dando graças

Quem sabe por suas desgraças

Com as quais as abençoou.

Não entendo essas mulheres

Escravas da perfeição

Que julgam não ser quem são

Poderosas por natureza

Sonham com a submissão

De título cartorário e pensão.

Não entendo nem a mim

Ora homem, ora pessoa

Ora mulher, ora eu mesma

Que nem sei o que vim fazer

Nesse mundo deslumbrado

Da poderosa São Paulo...

Eu vivo na Liberdade.

sábado, 14 de novembro de 2009

Quando o mofo dá... mofo deu.

Digam o que disserem, façam o que fizerem... EU AINDA OS AMO!
Onde eu consegui essa foto? Oras... foi feita por mim! Arraes ainda fumava charuto, Luciano era vice de João, e Lula era só candidato. Encontro Nacional do PT, Centro de Convenções de Olinda, 2001 - Uma odisseia no mar vermelho (que já azulou, a bem da verdade).

Sendeiro



Quanto mais me calo, mais dói
Mais nego e ainda renego
Mais me desconheço e desconfio
Que o volume alto de minha voz
Tem sua razão de ser.

Estranho o silêncio que me sai
E me esconde entre o impulso e a necessidade
De um jeito jamais esperado
Com a desculpa de falta de voz
Quando o que falta é coragem
E eu sei – e isso basta.

A palavra não-liberta
Ainda não é essa que agora vaza
E talvez seus grilhões
Sejam, afinal, de puro ouro:
Mais firmes que minha vontade
Mais duros que minha coragem.

Essa conversa de enigmas
Entre cérebro e estômago
Não ousa sair da garganta
Mas regurgita ácida
Queimando tudo por dentro
Sufocando-me.

Por ora me contenho mais um pouco
Pois sei que meu eu
É mais forte que esse outro meu eu
E não há ouro que resista à explosão que segue
O momento de minha retomada:
- Cá estou. De volta. Aos berros.


De volta ao pugilismo


Não me falta acontecer mais nada. Há pouco recebi um email da BANCADA DE OPOSIÇÃO DE PERNAMBUCO, onde um bando de cara-de-pau que sempre (repito: SEMPRE) explorou o estado agora quer posar de mártir da justiça social, da transparência e da retidão política. Quem não te conhece que te compre - taí minha resposta à Bancada Metralha (eles pedem no site http://www.bancadadeoposicao.com.br/index.php?action=enviar_contatopovo que a gente tire dúvidas... portanto...):

__________________________________
LI OS NOMES DOS NOBRES DEPUTADOS QUE COMPÕEM A BANCADA DE OPOSIÇÃO E FIQUEI COM UMA DÚVIDA:ISSO É UMA BANCADA OU UMA QUADRILHA?
Não faço a menor ideia de como vcs conseguiram meu email e nem por que o cadastraram, mas exijo a retirada de meu endereço desse mailing imediatamente.
_____________________________

Só a título de esclarecimento: não morro de simpatia por Dudu, e nem estou acompanhando o seu governo. Portanto, a resposta não se trata de defesa do atual governo do filho de Francisco, é só uma resposta aos filhos de chocadeira que - estes sim, e infelizmente - eu conheço bem.

Ah, merda. Tô quieta no meu canto e os caras vêm me provocar. Pau no toitiço. Apagão neles.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Lúgubre


O desejo retirou-se
Assim, como se não tivesse sido,
Como jamais tivesse havido,
Como flor que não brota:
Findo ao natural.
Como uma última gota
Que se esvai, garganta abaixo,
Para voltar a ser apenas mais uma
No mar do corpo saciado.
Acabou sem vestígio
Sem saudade ou lágrima
Sem um riso de alívio
Ou de escárnio.
Nada restou:
Nem agradecimento
Nem sofrimento
- Um nada depois de tudo.
Atrás de si, sequer escuridão
Ou mágoa ou dor;
Nem tristeza, nem amém.
Para trás, apenas a lembrança
Com curto prazo de validade
De um amanhã menos intenso
Repleto da certeza do esquecimento.
O desejo retirou-se
E eu não senti nem falta.
(Eu, que imaginava que morreria...)

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Seda


Costuro o manto da alegria
Ciente que a linha da vida
Uma vez se acaba
- Uma vez só...

E que o tecido escolhido
Sempre poderia ser melhor
Ou pior.

Costuro meu manto colorido
Com afinco mas sem pressa:
Alegria demais se acaba
- Ou descostura.

Embora sempre inacabado
É este o manto que já me cobre,
É este o manto que me sustenta.

Costuro o manto imenso
Mesmo sabendo que o arremate
Me será sempre negado
- Eu, mortal.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Avohai!


Tenho muita curiosidade de saber onde essa moda do politicamente correto, por força até de lei, vai parar.
O uso da camisinha passará a ser rigorosamente fiscalizado?
Churrascaria com carne gorda vai virar sinônimo do que hoje é uma boca-de-fumo?
Hamburguer vai dar pena capital?
Ter mais de dois filhos vai condenar o casal ao manicômio judiciário?
Pintar o cabelo de verde pode significar multa + prestação de serviços comunitários?
Sair no frio sem vestir casaco será delito?
Fazer filme pornô será crime punível com castração?
E prostituição, só será permitida se o cliente assinar a carteira de trabalho do/a profissional?
E tudo o que a gente escrever, só será ortograficamente aceito se colocarmos as duas opções do gênero?

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Padrão

Vivi minha vida toda fazendo o que achava certo
E vasculhando o que achava errado, com muito gosto.
De tanto fuçar, encontrei o certo no errado,
O erro no pensar com os outros,
Nuances adoráveis entre o belo e o feio,
O certo e o errado, o sim e o não, talvez.
Entre um lado e outro da ponte, vivo em desequilíbrio
Daqui pra lá, de lá pra cá, sempre em risco de queda
Ou de temido aprumo.
E cada dia mais adoro a aventura
A incerteza do próximo passo
A ansiedade pelas consequências
A boa expectativa do meio
Na maravilha de não se conhecer o fim
- Se é que há fim.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Você pode fumar baseado na lei do Serra


Sei que hoje Woodstock completa quarenta anos, e eu gostaria até de escrever um post sobre o assunto. Talvez amanhã. É que há dias eu estou querendo escrever sobre a famigerada Lei Serrana Anti-Fumo que virou psicose em São Paulo. Não tive tempo nos últimos dias (muito trabalho de verdade: tô quase me sentindo celetista), e uma dor muscular constante nas costas me fez repelir o quanto pude o computador e até as viagens.
Mas...
Simbora.
Por inspiração, cobrança e até plágio do meu amigão Duduzovsky, lá vai o post do anti-fumo.
Há um ano e meio, deixei de fumar. Fumava uma carteira por dia, desde os 15 anos, mas nunca consegui me acostumar com o fedor do cigarro. Nunca gostei de baforada na cara, e muito menos de fumar em local fechado. Apesar de tudo, era fumante convicta e, por conta disso, tinha quase vinte quilos a menos. Tudo bem.
Larguei o cigarro bem no comecinho da fase "cigarro é trash". Larguei porque acordei numa madrugada desesperada para fumar. Nunca tinha me acontecido, e achei que era hora de dar um basta. Até porque aqui é frio pra caramba, longe de qualquer lugar onde se possa comprar cigarros, e eu detesto acordar de madrugada.
Pois bem. Aí vem o Serra e proíbe fumar em qualquer ambiente público. Vai ser copiado em tudo quanto é canto, podem apostar.
Sou contra. Absolutamente contra.
Não gosto do Estado intervindo tanto na vida e na escolha das pessoas. Mas, se quer intervir de verdade, ao invés de botar mangana disfarçado pra multar bares, que tal proibir a fabricação e o comércio de cigarros? Fizeram isso com maconha, por exemplo. Não dá muito certo, mas a lei tá lá e de vez em quando serve como desculpa pra botar gente sossegada em cana.
Então... a vida ficou muito mais tranquila para os não-fumantes-de-tabaco-em-São-Paulo. A vigilância em cima dos fumantes de tabaco tá tão ferrenha, que não duvido nada ouvir, qualquer dia desses, durante um flagrante policial: "É maconha, doutor, é maconha! Não fumo tabaco não, pode ver aqui pelo cheiro", "Que nada, malandro. Pensa que eu não conheço esse fumo com filtro?", "não, doutor, eu juro que é só maconha! O filtro é porque eu não gosto da poeirinha que desce quando trago... Por favor, não me fiche! Não tenho dinheiro pra pagar a multa! Sou pai de família... Juro que vou pra uma clínica de reabilitação e voto no Serra!".
E os pobres garçons? Que situação... "Me vê um cinzeiro, por favor", "Sinto muito mas..." "Então vou jogar a cinza no chão", "mas tá proibido fumar aqui", "tá proibido o quê? Isso né maconha não, camarada, é cigarro que eu tô fumando, tabaco. Esse pessoal que fabrica isso aqui paga os maiores impostos para o governo, sabia? E ainda banca campanha eleitoral...", "desculpe, senhor, mas é que se eu deixar o senhor fumar aqui, o patrão vai ser multado, e aí me demite", "e meu direito de ir e vir? Sou um cidadão! Que porra de birosca é essa que não permite ao cliente desfrutar sua cervejinha com o seu cigarrinho?", "mas doutor, é a lei do Serra... mas o senhor quer fumar? Venha aqui atrás, eu levo o senhor no quintal do bar e o senhor fuma. É onde a gente tem fumado escondido", "Ah, escondido, né? Sabia! Você está multado! Eu sou fiscal da lei anti-fumo".
É flórida.
Fumar virou ato anti-social antes mesmo da lei. Bar sempre foi território livre para cigarros, certo? Só que isso já tinha mudado por essas bandas. Experimentasse o cidadão de acender seu fuminho legal numa mesa de bar. Os olhares vizinhos estariam voltados a ele. Alguém ia espirrar por perto. Uma mocinha ia comentar com o namorado que é um absurdo a falta de respeito dos fumantes com os não-fumantes. O outro ia resmungar de lá que deixou de fumar pra não morrer, mas agora era obrigado a fumar o cigarro dos outros. Um saco.
E vem a lei do Serra (falar nisso, tá rolando um babado forte de que o vampiro tucano tá com uma doença medonha, vocês souberam? Essa é quente, saída do forno!). Agora posso me vingar fácil de umas raivinhas comuns.
Se eu levar um tranca de um caminhão, ligo pra Polícia Rodoviária e aviso que o caminhoneiro tal está fumando em via pública! Melhor do que avisar que o filho da mãe me deu um tranca e quase me matou.
Se eu for assaltada, é só levar para a delegacia a bituca de um cigarro e dizer que o assaltante, além de fumar no seu ambiente de trabalho, ainda me deu uma baforada na cara, causando danos irreparáveis à minha saúde. É cana e multa pro safado. Ou pelo menos a multa, né?
Ex-maridos estão ferrados. Ex-esposas vão cobrar indenização por anos e anos de submissão a um cruel fumante. Aliás, herdeiros deserdados também podem apelar para este recurso, pois daqui a uns poucos anos Gilmar Mendes (vaso ruim não quebra cedo) vai criar jurisprudência: se você fuma, é diretamente responsável pelos danos causados à saúde de seus ascendentes, descendentes, parentes na horizontal (calma, me refiro a esposa, marido, e outros penduricalhos escolhidos pelo cidadão para estar ao seu lado), amigos, funcionários, chefes, patrões, vizinhos, inimigos e qualquer pessoa com quem você tenha tido contato na sua vida de fumante.
Tudo bem que é melhor estar num ambiente sem cigarro por perto. Sem dúvida. Mas não quero ter que deixar de tomar umas e outras e mais outras e mais umas outras e mais a saideira e mais a deira e a saída e a final e a saída final e a última e a última de verdade e a do troco com meus amigos fumantes. Sejamos civilizados: não precisa submeter todo mundo à fumaça do seu cigarro. É só criar ambientes para fumantes e para não-fumantes. Eu fico na ala dos fumantes, em solidariedade aos meus amigos fumantes e em solidariedade ao Lula e à Dilma e à Marina Silva e à Heloísa Helena (vixe, quanta candidata mulher!) e a qualquer oponente ao Serra.
(Se Serra fosse bom, não teria esse nome. É questão de predestinação mesmo.)
Fumo pra você, Serra. Quero ver o que você vai fazer quando o Obama visitar São Paulo e acender o cigarrinho bem no seu palácio temporário. Multa ele, que eu quero ver...
E um recado: se criou a lei para me fazer mais uma raiva, se ferrou. Deixei de fumar tabaco, babaca. Mas volto a fumar, e a tragar e a baforar bem na sua cara assim que o encontrar na rua, pode crer.

sábado, 1 de agosto de 2009

Fim de férias

Caio, Julia, Talles e Moranguinho: faltou Bruninho na foto...
Caraca... já faz um mês que acabou junho - e eu postei pela última vez. O tempo passa, o tempo voa, e a Poupança Bamerindus (o banco ainda existe???) continua numa boa. Nem percebi direito a passagem de julho.
Eu resolvi me internar no sítio de Varginha. Não ao computador, não às comprinhas na cidade, não ao celular, não ao trabalho. Em julho, sim somente para a diversão e para a suprema alegria de estar com os meus, me divertindo com todas as coisas miúdas com que nos deparamos no dia-a-dia, criando novidades, cuidando dos bichos recém-nascidos e das gestantes. Por sorte, um julho quente durante os dias e frio às noites. Um exorcismo de tudo de ruim que aconteceu em junho.
Estou feliz. Toda cheia de picadas de carrapatos (que invadiram minha horta sem dó nem piedade), mas feliz.






segunda-feira, 6 de julho de 2009

Acaboooooouuu... e estou aqui pra contar.

Junho acabou e eu continuo viva. Ufa.

Mas... e as festas juninas? Não vi nem sombra. Apenas um resquício dos mais desagradáveis: barulho de fogos. Se bem que não tenho certeza se foram fogos juninos mesmo ou se foi a torcida do "curíntia" comemorando um quilo a menos de seu novo ídolo de infância depois do Tevez, Ronaldinho.

Senti falta da festa junina, a minha predileta. Falta de dançar forró naquele friozinho de Caruaru, aquele colorido das roupas, as comidas!!! Para o desespero não ser maior, comi cuscuz, pamonha e canjica, milho verde cozido e assado. Só que o gosto não é o mesmo, definitivamente. Fogueira não fiz, e só agora é que me dei conta de que poderia perfeitamente tê-la feito.

Sequer assisti às manjadas reportagens televisivas sobre a folia que deveria estar correndo solta em todo o Nordeste, e especialmente em Caruaru e Campina Grande. Nada, nada, nada. Pra não aumentar ainda mais a saudade do que já foi - e que (sei) dificilmente seria de novo.

Ainda bem que Junho acabou.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Muito mais que vaidade

Que calcanhar mais mal-cuidado! Amarelado!!!
Li na Veja desta semana o depoimento de uma mãe cuja filha, de 9 anos, vai semanalmente ao salão de beleza fazer unhas (pés e mãos) e cabelo (escova normal e progressiva). A menina segue um ritual diário que inclui cremes para cada pedacinho do corpo, além de filtro solar (para não manchar a pele), salto alto (para se adaptar desde cedo) e mil e uma outras frescuras. Acorda às 6h para tomar banho e escovar o cabelo antes de ir para a escola. A mãe diz que prefere a filha exageradamente vaidosa do que uma filha "descuidada", e arremata afirmando que mulher tem mesmo que ser feminina (para ela, feminilidade é sinônimo de futilidade, pelo visto).
Outra criança, também aos 9 anos, além de fazer tudo o que a outra faz (rotina de salão de beleza e cremes), ainda se interna vez por outra em um spa para fazer regime, porque "não se habitua a comer frutas e verduras em casa", como revela a mãe. Claro que a menina não tem nada de gorda, nada de sobrepeso. Ah, ela já faz drenagem linfática para prevenir celulite também.
Uma terceira cobaia-de-mãe que aparece na reportagem já tem 18 anos e foi presenteada pela mãe, no aniversário, com uma aplicação de botox. Isso porque, quando sorria, aparecia (diz ela) uns "risquinhos" na testa. Reclamava dos críticos, argumentando que cada um deve fazer o melhor pela sua auto-estima, e que ela não suportava os risquinhos na testa - muito menos a ideia de envelhecimento que os tais riscos lhe davam. Aos 18 anos.
Pois é.
De vez em quando vou ao salão fazer as unhas. Não tenho regularidade. Uso hidratante quando me dá na telha, mas mesmo assim, o mesmo que uso no rosto é o que uso nos braços, nas pernas, nos pés, no corpo todo. Gosto mesmo de ter a pele hidratada, gosto de sentí-la macia. Uma amiga minha me deu um curso de maquiagem de presente, ao que recusei, alegando que já tinha aprendido (e faz tempo) a colocar batom, e isso é suficiente. Só entrei em spa na vida para fazer reportagem, e mesmo assim, sem direito a "test-drive". Penso em fazer uma cirurgia plástica (agora não é mais chamada de plástica, e sim "estética") da cabeça aos pés, desde que seja feita por Pitanguy e de graça, ainda por cima. Posso até ter roupa de marca no meu guarda-roupa, mas sinceramente ignoro (igual a churrasquinho de gato: suspeito que já comi; mas se comi, foi enganada). Salto alto, raramente. Fiz escova progressiva duas vezes, e gostei deveras (com a escova progressiva, posso até me dar ao luxo de esquecer de escovar o cabelo antes de sair de casa).
Sou, enfim, uma anti-feminina, no conceito atual das mães-de-cobaia. Sempre fui do tipo que dispensava o embrulho do presente.
No entanto, confesso: com meu modelo, está difícil sobreviver em São Paulo. Tenho cedido em algumas coisas. Mesmo assim, muitas vezes sinto-me um ET.
Melhor é voltar pra Varginha. Senão, termino aplicando botox.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Nem black, nem white

Quantas mortes ele já teve? Chorei pela primeira...

O papel do diploma


Sou jornalista. Estudei para isso, atuo nessa profissão desde os meus 18 anos – e hoje tenho 38. Tenho algumas considerações a respeito da decisão do STF quanto à obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão, e também quanto aos comentários – sempre infelizes – do infeliz ministro filhote de FHC e Rei do Gado do Mato Grosso. É bom falar mal dele, já que ele defende com tanto ardor a liberdade de expressão, né, coronel?
O que isso muda em minha vida? Pouca coisa, para não ser idiota ou arrogante o suficiente para dizer que não muda nada. Já tenho currículo e nome, e se de repente eu ficar desempregada, certamente não vai ser pela inexigibilidade do diploma. Isso não tem a menor importância no meu ramo, que é a política. Aqui, o que vale é o resultado, e isso eu tenho pra mostrar.
Para quem está estudando ou iniciando a carreira, vai ser barra conseguir uma vaga num mercado de trabalho que há anos privilegia a contratação de estagiários, muito mais baratos que os salários básicos dos profissionais. A diferença agora não vai ser mais o título, e sim a seriedade da empresa e a capacidade do trabalhador.
Por tremenda ironia, só na segunda-feira passada eu pude colocar as mãos no meu diploma. Eu nunca o havia requerido, e nesses 20 anos de trabalho ninguém nunca exigiu que eu o mostrasse. Como agora resolvi fazer um MBA, a universidade pediu e eu requeri. Brinco, dizendo que nem o STF quer mais o meu diploma (é papel de folha única, e não folha quádrupla como imagino que tenha nos banheiros dos ilustres ministros). Só brincadeira, claro. O diploma continua fazendo a diferença.
Sou mesmo a favor da inexigibilidade do diploma. Com exceção para aqueles que pretendem trabalhar com saúde, nas áreas de engenharia (altamente técnicas), com educação, e para quem quer ser cientista. O resto é balela, inclusive o disputado curso de Direito (que também cursei). Sabe ler e interpretar? Então pode ser um bom advogado. Ou até presidente do STF. Igualzinho a jornalista. E a cozinheiro. E a Relações Públicas. E a motorista. E a publicitário. E a bacharel em Comércio Exterior. E a Economista. E a dezenas e dezenas de outras profissões.
A técnica profissional pode ser adquirida com mais ou menos facilidade, dependendo da “vocação” e da obstinação de cada um. Só não sei ainda como resolver o problema da ética, cujo vestígio a gente só tem algum contato nas universidades.
Em muitos casos (mas não em todos), a exigência do diploma não passa de reserva do mercado. “Eu cursei, estudei, e por isso tenho direito a uma vaga no mercado do trabalho” – essa lenda urbana já era, como a maioria dos funcionários públicos e bancários comprova.
De qualquer forma, eu não abriria mão de fazer um curso universitário de jeito nenhum. Independente de ser exigido diploma ou não. Porque a universidade deve ser muito além de um mero passaporte para o mercado de trabalho. Universidade é academia, é lugar de estudos, de troca de idéias, de abertura de cabeça para o mundo além do nosso umbigo e de nossa sempre medíocre visão. Fundamental para mim, uma anta que se espanta com o óbvio todo santo dia, e que precisa ser provocada para pensar (porque pensar dá preguiça mesmo).
Inexigibilidade não significa proibição. Quem quiser estudar, se preparar melhor, vai ter sua chance de estudar na sua área de conhecimento predileta. Os cursos continuam - se bem que as faculdades da moda devem chorar a perda de interessados, o que eu considero uma vantagem da decisão do STF. Aquele que tem vocação para uma profissão pode querer se preparar melhor na universidade.
Agora... a defesa foi pífia demais. Defesa da liberdade de expressão? Uai... desde quando o jornalista impede a liberdade de expressão? Os jornaizinhos estão aí pra desmentir essa tese. Os jornalistas (e empresários da comunicação, principalmente) podem manipular a expressão da opinião, é verdade. E a vacina contra isso é processo judicial. E essa verdade não vai mudar em nada com a inexigibilidade do diploma, diga-se de passagem.
Pra terminar: espero que a FENAJ e os sindicatos de jornalistas não estrebuche muito com a decisão do STF. Porque a inexigibilidade do diploma já era uma realidade para a maioria absoluta dos meios de comunicação que não estão em grande destaque. Se um não-jornalista for atuar como jornalista da Folha de São Paulo, os sindicatos caem de pau. Mas ignoram solenemente as redações do interior do país (inclusive o interior de São Paulo) entulhadas de não-jornalistas. Quando eu fiz a denúncia, recebi como resposta: “é fogo, né? Os caras não contratam jornalista pra não pagarem o salário certinho”. “Sim, mas o que vocês vão fazer quanto a isso?”. “Vamos tomar as providências”, garantiu-me o burocrata sindical. Claro, nenhuma providência foi tomada. Nunca.
Agora, não chiem.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Viver de novo


Renasci. Graças à perícia de um motorista, estou viva hoje.
Quero saber o que mais me reserva esse mês de junho de 2009. Não foi bom, não está sendo bom. Desde o primeiro dia. E eu pensei que ontem, com o quase acidente que sofri, tinha acabado a desgraceira, mas hoje teve mais.
Começar por ontem.
Depois de passar uma hora e meia entre a rodoviária do Tietê e a Bandeirantes, o motorista do ônibus que me levava para Jundiaí respirou aliviado e, como tantos outros motoristas naquela mesma hora, acelerou fundo. Eu, cadeira número 1 sempre que posso (aquela da janela exatamente atrás do motorista), gostei. Tava louca para chegar em casa e começar a devorar O Filho da Revolução, a biografia de Renato Russo. No ônibus não dava: vizinho espaçoso, escuridão, etc.
Rodamos pouco assim. No quilômetro 4 da rodovia, estávamos na terceira faixa. À frente, um motoqueiro colado ao fundo do caminhão, que é como os motoqueiros dessa banda de cá costumam andar nas rodovias. Ao lado do caminhão, outro. Do lado esquerdo do ônibus, dois veículos pequenos; do lado direito devia ter alguma coisa, mas não era do meu alcance visual.
De repente (e não mais que de repente), um ônibus pretende mudar de faixa, passar à esquerda. Não viu que tinha um outro caminhão no mesmo local, acho que muito menos se lembrou de já ter ouvido falar que dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço (se bem que tem as noites de muito, muito frio para contradizer essa regra). O caminhão da esquerda puxa com tudo para a sua esquerda - tinha uma faixa mais ou menos livre, já que a caminhonete que estava lá rapidamente fugiu para um raro canteiro da estrada onde não há uma fenda profunda.
O caminhoneiro-vítima certamente se apavorou. Por isso puxou o freio tão bruscamente, que o fez simplesmente girar na pista. O motoqueiro atrás do caminhão primeiro bateu com tudo na traseira, e depois voou entre os dois caminhões que batiam. Impossível ter sobrevivivo.
E atrás do motoqueiro, e nada longe dele, vinha o ônibus de onde eu presenciava horrorizada a tudo isso. Presenciava mais: graças aos professores Paladino e Marcelino, que me ensinaram física no ginasial, eu vi que não haveria como escaparmos do acidente. Um motoqueiro esparramado, uma moto largada, um caminhão brincando de carrossel e nosso ônibus a uns 100, 110 quilômetros por hora. Quem é que vai saber que eu morri no meio da estrada?, pensei na hora. Ninguém sabia onde eu estava, nem para onde eu ia. Vou tatuar minha carteira de identidade bem no meio das costas, com telefone para contato.
Mas... não sei como, mas deu certo pra gente. Os carros que estavam ao nosso lado perceberam a situação e correram para o raro acostamento possível. O motorista do ônibus fez um "L" na pista e escapou por pouco de ser atingido pela carroceria do caminhão-redemoinho. Também escapou por pouco de virar no acostamento, por causa do desnível. Tudo foi tão rápido que nem tive tempo de fazer meu testamento.
Trêmulos, paramos adiante, no primeiro posto policial que encontramos. Contamos sobre o acidente e a polícia se dirigiu pra lá. Fomos para casa vivos e sãos. Quase beijei a boca do motorista, tão grata que eu estava. Foi foda.
Aí hoje me acontece de presenciar outro acidente horroroso no meu ambiente de trabalho: um prestador de serviços caiu do telhado ao lado da minha sala. Estava ajeitando o teto, pisou errado e abriu um buraco, caindo no chão depois de ignorar telhas, fiação, cobertura de gesso e mesa de vidro. Sem fraturas, pelo que sei. Foi socorrido pelos Bombeiros, mas aparentemente estava razoavelmente bem, quatro metros abaixo do telhado.
Se essa porra desse mês não terminar logo, sei não...

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Sobre limites...


Coisa chata é ouvir discurso de motivação completamente descabido.
Sempre tive muita dificuldade de dirigir à noite em viagens, onde a iluminação fica por conta do farol do carro. Piora muito, mas muito mesmo, quando na estrada não é sinalizada. Piora muito mais, mas muito mais mesmo, quando há um carro do lado oposto ao meu, com aqueles faróis entrando nos meus olhos e me cegando. E fode tudo, mas fode mesmo, quando os malditos faróis dos malditos carros contrários a mim, estão com a maldita luz alta. Aí eu deixo de ser uma motorista e viro uma arma de alto poder de destruição.
O que faço? Simples: não pego estrada à noite. E pronto, resolvidos todos os problemas.
Mas...
Há quem não acredite nisso. Há quem pense que isso é trauma e precisa ser "curado". Há quem pense que isso é frescura. Aliás, podem pensar o que quiser, desde que não me forcem a pegar estrada à noite.
Mas ontem me forçaram. Não adiantou argumentar. Levaram meus sobrinhos para passear e só me devolveram quase três horas depois da hora marcada para viajarmos de volta para casa, o que me obrigou a pegar estrada mesmo sabendo que mais da metade da viagem seria feita no escuro. Era imprescindível voltar no domingo. Não tinha opção.
Tensa, os ombros parecendo dois troncos encaixados no meu tronco, o pescoço com jeito de cabide, torando aço, com os três sobrinhos dormindo no banco de trás, enfrentei a fera. Como desgraça pouca é bobagem, às 17h o breu tomou conta do mundo, de modo que passei uma hora a mais no escuro.
Tudo muito ruim, a dor de cabeça latejando (sempre que fico muito tensa ela me visita, a desgraçada), cara amarrada, aí minha acompanhante (responsável pelo atraso) sai com uma dessas:
- Você precisa enfrentar seus medos. O que há em dirigir à noite?
- Medo um cacete. Isso é defeito visual, deficiência física, problema real.
- Mas você está dirigindo bem...
- E o que mais eu poderia fazer? Estou com meus sobrinhos no banco de trás, entendeu? Vou me foder aqui, tensa e com dor de cabeça, mas vou chegar em casa com todos eles em segurança.
- Tá vendo? Você consegue! É só se determinar a fazer algo bem, que você consegue. Isso tudo é coisa da nossa cabeça, e o melhor a fazer é enfrentar. E você está enfrentando...
- Olha, pra não mandar você ir tomar no cu, eu vou esclarecer umas coisinhas e encerramos o papo. Primeiro, eu tenho uma deficiência visual noturna, e o bom senso me manda respeitá-la; segundo, todo mundo que convive comigo sabe que eu não pego estrada à noite, inclusive você; terceiro, se estou hoje à noite dirigindo é por sua causa; quarto, as pessoas mais preciosas do mundo estão no banco de trás deste carro e é minha responsabilidade levá-las para casa em segurança; quinto, eu estou puta da vida com você, e se eu fosse você não me provocava mais; e, por último, vá tomar no cu com esse seu papinho 1-7-1 de motivação. Desculpe, eu disse antes que não ia mandar você tomar no cu. Mas vá assim mesmo.
Chegamos com relativa tranquilidade, tudo no sossego. Mas ainda hoje pela manhã estou com uma enxaqueca daquelas.
Uma coisa é incentivar os outros a vencer seus medos. A outra é forçar a outra a ir além de um limite real, físico. Isso é irresponsabilidade.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Que Paraíso???

John Collier: Lilith, 1892

Há coisas na vida que deixam a gente muda. E sem vontade de nada.

Mas deu vontade de contar a vocês a história de Lilith. Tirei da Wikipédia. Inté.

Lilith (לילית em hebraico) é referida na Cabala como a primeira mulher do bíblico Adão, sendo que em uma passagem (Patai81:455f) ela é acusada de ser a serpente que levou Eva a comer o fruto proibido. No folclore popular hebreu medieval, ela é tida como a primeira esposa de Adão, que o abandonou, partindo do Jardim do Éden por causa de uma disputa sobre igualdade dos sexos, chegando depois a ser descrita como um demônio.
De acordo com certas interpretações da criação humana em Gênesis, no Antigo Testamento, reconhecendo que havia sido criada por Deus com a mesma matéria prima, Lilith rebelou-se, recusando-se a ficar sempre em baixo durante as suas relações sexuais. Na modernidade, isso levou a popularização da noção de que Lilith foi a primeira mulher a rebelar-se contra o sistema patriarcal.
Assim dizia Lilith: ‘‘Por que devo deitar-me embaixo de ti? Por que devo abrir-me sob teu corpo? Por que ser dominada por ti? Contudo, eu também fui feita de pó e por isso sou tua igual.’’ Quando reclamou de sua condição a Deus, ele retrucou que essa era a ordem natural, o domínio do homem sobre a mulher, dessa forma abandonou o Éden.
Três anjos foram enviados em seu encalço, porém ela se recusou a voltar. Juntou-se aos anjos caídos onde se casou com Samael que tentou Eva ao passo que Lilith Tentou a Adão os fazendo cometer adultério. Desde então o homem foi expulso do paraíso e Lilith tentaria destruir a humanidade, filhos do adultério de Adão com Eva, pois mesmo abandonando seu marido ela não aceitava sua segunda mulher. Ela então perseguiria os homens, principalmente os adúlteros, crianças e recém casados para se vingar.
Após os hebreus terem deixado a Babilônia Lilith perdeu aos poucos sua representatividade e foi limada do velho testamento. Eva é criada no sexto dia, e depois da solidão de Adão ela é criada novamente, sendo a primeira criação referente na verdade a Lilith no Gênesis.
No período medieval ela era ainda muito citada entre as superstições de camponeses, como deixar um amuleto com o nome dos 3 anjos que a perseguiram para fora do Éden, Sanvi, Sansavi e Samangelaf para que ela não o matasse, assim como acordar o marido que sorrisse durante o sono, pois ele estaria sendo seduzido por Lilith.
A imagem de Lilith, sob o nome Lilitu, apareceu primeiramente representando uma categoria de demônios ou espíritos de ventos e tormentas na Suméria por volta de 3000 A.E.C. Muitos estudiosos atribuem a origem do nome fonético Lilith por volta de 700 A.E.C.
Ela é também associada a um demônio feminino da noite que originou na antiga Mesopotâmia. Era associada ao vento e, pensava-se, por isso, que ela era portadora de mal-estares, doenças e mesmo da morte. Porém algumas vezes ela se utilizaria da água como uma espécie de portal para o seu mundo. Também nas escrituras hebraicas (Talmud e Midrash) ela é referida como uma espécie de demônio.
Talvez dada a sua longa associação à noite, surge sem quaisquer precedentes a denominação screech owl, ou seja, como coruja, na famosa tradução inglesa da bíblia, na Bíblia KJV ou King James Version. Ali está escrito, em Isaías 34:14 que ... the screech owl also shall rest there. É preciso salientar, comparativamente, que na renomada versão em língua portuguesa da bíblia, isto é, na tradução de João Ferreira de Almeida, esta passagem relata que ... os animais noturnos ali pousarão, não havendo menção da coruja[1], como é freqüentemente, muito embora erroneamente, citado no Brasil (tratando-se de um claro exemplo da forte influência da cultura anglo-saxã no mundo lusófono atual).
Na Suméria e na Babilônia ela ao mesmo tempo que era cultuada era identificada com os demônios e espíritos malignos. Seu símbolo era a lua, pois assim como a lua ela seria uma deusa de fases boas e ruins. Alguns estudiosos assimilam ela a várias deusas da fertilidade, assim como deusas cruéis devido ao sincretismo com outras culturas. A imagem mais conhecida que temos dela é a imagem que nos foi dada pela cultura hebraica, uma vez que esse povo foi aprisionado e reduzido à servidão na Babilônia, onde Lilith era cultuada, é bem provável que viam Lilith como um símbolo de algo negativo. Vemos assim a transformação de Lilith no modelo hebraico de demônio. Assim surgiu as lendas vampíricas, Lilith tinha 100 filhos por dia, súcubus quando mulheres e íncubus quando homens, ou simplesmente lilims. Eles se alimentavam da energia desprendida no ato sexual e de sangue humano. Também podiam manipular os sonhos humanos, seriam os geradores das poluções noturnas. Mas uma vez possuído por um súcubus dificilmente um homem saía com vida.
Há certas particularidades interessantes nos ataques de Lilith, como o aberto esmagador sobre o peito, uma vingança por ter sido obrigada a ficar por baixo de Adão, e sua habilidade de cortar o pênis com a vagina segundo os relatos católicos medievais. Ao mesmo tempo que ela representa a liberdade sexual feminina, também representa a castração masculina.
Pensa-se que o Relevo Burney, um relevo sumério, represente Lilith; muitos acreditam também que há uma relação entre Lilith e Inanna, deusa suméria da guerra e do prazer sexual.
Algumas vezes Lilith é associada com a deusa grega Hécate, "A mulher escarlate", um demônio que guarda as portas do inferno montada em um enorme cão de três cabeças, Cérbero. Hécate, assim como Lilith, representa na cultura grega a vida noturna e a rebeldia da mulher sobre o homem.
Nos dois últimos séculos a imagem de Lilith começou a passar por uma notável transformação em certos círculos intelectuais seculares europeus, por exemplo, na literatura e nas artes, quando os românticos passaram a se ater mais a imagem sensual e sedutora de Lilith, e aos seus atributos considerados impossíveis de serem obtidos, em um contraste radical à sua tradicional imagem demoníaca, noturna, devoradora de crianças, causadora pragas, depravação, homossexualidade e vampirismo. Podendo ser citados também os nomes de Johann Wolfgang von Goethe, John Keats, Robert Browning, Dante Gabriel Rossetti, John Collier, etc...Lilith também é considerda um dos Arquidemônios símbolo da vaidade.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Sombrio


Um sonho indiscreto
Povoa meu anverso
O lado do emblema,
Perverso,
Tão-somente contido
Neste pobre universo
Que existe
Latente
De renegado progresso
Visto que problemático
(Diria até que enfático)
Em meu sonho indiscreto.

Levanto asas ao léu
Desnudadamente,
Sem culpas a pesar.
Companheiros ao longe
E eu aqui de cima,
Adivinhando passos,
Brigas, atitudes,
Reversos e lágrimas.
Nada de risos,
(De sonho, só o meu).
Inúteis asas,
Tarô do breu.

Ilusões desfeitas,
Dramas revelados,
Desaparecem as asas
E eu caio.
A Terra com seu fórceps
Aguarda o corpo
Para a última estrada
(A vida).
Sei que minha morte
Será arrancada de mim,
E isso me apavora.
Jamais quis nascer

(Quero apenas voar, e não ver...)

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Gélido



Hoje está frio, escuro, cru.
O fim ronda os cantos
Lembrando das inutilidades
Que atormentam
E os verdadeiros valores
Que renegamos em nome do nada
Que pensamos ser o tudo
Até que chega o fim.
E a gente morre
Frios, roxos, gelados.
Crus. Não-vivos.
Belos, e não-vivos.
Insensíveis e sós,
Nós. Todos nós.
Juntos e sós.
Hoje ou amanhã,
O fim ronda os cantos
E nos alcança.
A gente aguarda, só.
E sós.
Hoje está muito frio.

domingo, 31 de maio de 2009

Casa de ferreiro, espeto de pau


Tenho um professor que disse, em tom de "me dei bem", que conseguiu um excelente emprego porque o irmão, auditor da Receita, o pediu ao dono da empresa que estava fiscalizando. Toda a classe caiu na gargalhada. Eu tô doida ou isso é corrupção confessa? Eu tô chata ou é um absurdo isso ser dito por um professor ao seu alunado? Eu tô velha ou é a ética que bateu as botas?

***************
Uma amiga sofreu um doloroso aborto em fevereiro. Ficou hospitalizada e se submeteu a uma curetagem na época, ficando de repouso e obedecendo a todas as indicações médicas. Segunda-feira passada, voltou ao médico porque tinha uma menstruação forte há 21 dias. E então descobriu: não era menstruação, era hemorragia. A placenta que devia ter sido retirada de seu útero em fevereiro ainda estava lá. Por pouco, não teve uma infecção violenta. E se submeteu a outra curetagem. Quem sabe dessa vez o médico não esquece de tirar a placenta.
Absurdo, dolorido, irresponsável.
Se fosse comigo, eu matava o médico.
***************
Conheço um sindicato que faz de tudo para não assinar a carteira de trabalho de seus funcionários. A categoria (dos dirigentes sindicais que se negam a assinar a carteira) está se movimentando pra entrar em greve, já que o patrão (deles, e não do funcionário que conheço) se nega a negociar um aumento salarial de R$ 15. E o funcionário sem direito a INSS, Décimo-Terceiro Salário, FGTS, holerite...
Sindicato. Sei.
****************
Desde que parei de fumar, em fevereiro do ano passado, não paro de engordar. Preocupada, fui a um endocrinologista (esperei quatro meses pra conseguir a consulta pela Unimed). Em menos de cinco minutos, o filho da mãe ouviu minha queixa e passou a receita: três caixas de um desses inibidores de apetite. Eu perguntei se ele não ia pedir exames, ele disse que não precisava, que se via que eu estava sadia. Perguntei se ele não ia tirar sequer minha pressão, ao menos para disfarçar, já que ele tava com estetoscópio pendurado no pescoço como colar. Ele olhou pra mim com a cara de quem diz "tá tirando onda?". Fui embora. E não comprei remédio algum, óbvio.
E ainda tenho que chamar o cara de doutor???
********************
Ah, e o tal do professor ainda teve a cara de pau de dizer que nenhum político presta, é tudo ladrão. Ele não percebeu (?) a ironia quando perguntei, depois, quando ele tinha começado a carreira na vida pública. Respondeu que político era o pai dele, não ele.
Dorme com uma dessa.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Bad Trip

Alguém já leu a Turma da Mônica jovem?
Estou entre uma vontade desgraçada de ler e um medinho danado.
O que será que a Mônica jovem vai fazer com o Sansão? Rodar na cabeça do Cebolinha é que não vai (maior mico, né?). Namorar o Cebolinha? Putz, o cara é um idiota e a Mônica tem o maior potencial. E os dentões, será que algum dentista ia colocar aparelho nos dentes da moiçola? Será que ela prestou vestibular para Engenharia ou descambou para um curso técnico de cabeleireira? Já pensou a Mônica depiladora???
E o Cebolinha? Bem, é provável que ele continue fazendo mil e um planos maquiavélicos e fracassados, já que isso parece fazer parte da personalidade do rapaz. Tem pinta de marqueteiro, concorda? Um jovem tímido, inseguro pelas constantes leplovações pela dificuldade com as letlas tlocadas. Ai, são péssimas as perspectivas do adulto Cebolinha (como sempre indicou o apelido ridículo).
E o Cascão, já perdeu a mania de não tomar banho? E o que vai ser do Cascão amadurecido e limpo? Tem o maior jeitão de malandreco, né não? Não consigo vislumbrar a profissão do Cascão, mas acho que ele vai se afastar logo da turma e vai continuar adorando jogar bola pro resto da vida. Não vai ser esportivo. O Cascão vai ser representante comercial, pronto: viaja muito, faz muitas amizades, tem bom papo, é inventivo... é isso mesmo, Cascão vai ser representante comercial.
E a Magali? Das duas uma: ou vai ser modelo ou vai ser veterinária. Vai ser uma espécie invejada: a mulher que come tudo e não engorda jamais. Vai ser como a Carolina Ferraz, magérrima que vive fazendo inveja para o resto do mundo ao dizer em entrevistas consecutivas que é magra porque a natureza assim o quis. Logo, logo, ela vai abandonar aquele namoradinho filho do dono da padaria e vai se casar com um empresário. Do ramo alimentício, claro.
O Franjinha vai continuar sendo cientista, isso está no sangue. E como ser cientista no Brasil é passar fome, ele vai seguir o exemplo dos outros cientistas brasileiros: vai ser professor universitário pra se manter.
Não, gente. Não vislumbro nada muito interessante para a Turma da Mônica. O único com melhor futuro é o Piteco, que pode ser chamado para ser o mais novo ser misterioso que assombra a ilha da série Lost (depois da fumaça viva e dos ursos polares e da máquina do tempo). A Tina vai terminar tendo um rolo com o Rolo, para desespero daquela amiga gordinha dela – que, revoltada, vai fazer uma cirurgia de redução de estômago e casar com o desenhista do gibi.
E o Louco, como vai sobreviver com o aumento abusivo da louca concorrência? Tenho certeza que ele vai ser flagrado pelas câmeras da Globo no meio da torcida do Corinthians.
Não, não vou ler os gibis da Turma da Mônica jovem.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Abutre

Quando aprendi a soltar os ossos?
Depois da humilhação dos antigos
Ou da imprudência da fome?
No sentido do vento
Mirando a longínqua arma...
Tantos abutres ao meu redor!
Todos de minha espécie
(Caçadores como eu),
Famintos, sobreviventes,
Escorraçados traiçoeiros
Filhos de sua natureza
- Ou escravos, melhor dizendo.
Anos de misérias
Consumando fraticídios
Correndo de mim, de tudo
Voando para longe
Ignorando sentidos
Fugindo da morte
Procurando meus ossos...
...Em vão.
Hoje encontro meus ossos
E subtraio-lhes o tutano.
Aprendi a soltá-los:
Vivo.

sábado, 23 de maio de 2009

Sem graça


Estou em Campinas, morrendo de pena dos homens da cidade. Já escutei milhares de piadas sobre o campineiro ser invariavelmente bicha. No taxi, o motorista (de uma cidade pertinho daqui) já me avisou que homem de fora não pode beber água da cidade porque senão vira bicha. Depois contou que todo mundo contava piada sobre os gays de Campinas, mas a verdade é que - segundo ele - Campinas deve mesmo ser a capital gay do Brasil, porque "só tem isso". Fiquei com vontade de perguntar se essa abundância que ele alega na cidade é o que o atraiu para trabalhar na "Capital Gay".

Vou a uma conferência numa universidade. Perdida entre os blocos, escuto risadas e mais risadas. Penso, sacana: "se tem tantos homens rindo tanto, é porque é a conferência e estão contando piadas sobre gays". Pensei nisso e me censurei pela 'piada' de mau gosto. Mas logo vi que minha malícia era a mesma da menina que mente que não gosta do menino: chegando mais perto do grupo risonho, vejo uns seis homens, todos rindo e contando piadas de gays. Gays de Campinas, claro.

Corro para meu grupo de estudo. Só eu de mulher na sala. E... tchantchantchantchan... qualquer brecha que se abria, lá vinha uma tiradinha do tipo "cuidado com o que você fala, porque você está em Campinas e pode descobrir uma outra face..." haha. Ou "quem não é daqui, lá vai um aviso: saindo da universidade, pegando a estrada à esqueda, você vai dar no centro". Haha. "Quer água? É de Campinas, você gosta? Tem jeito de quem gosta..." haha.

Saco. Uma vez até que pode ser engraçado. Pode ser. Mais de uma, é chato pra carai.

Venho para o hotel. Tomo um banho, desço para jantar. Azar: tem uma turma de jogadores do Flamengo no otel (não me perguntem o que fazem na cidade), curtindo um churras na beira da piscina. Adivinha qual o assunto???

Recolho-me. Sei que o Jornal Nacional é uma bosta, mas pelo menos o Bonner (como é o nome do substituto dele aos sábados?) não vai mais fazer piadinha com os campineiros.

Vou descansar. Amanhã tem mais.

terça-feira, 19 de maio de 2009

A volta da blogueira


Dois meses depois, cá estou de volta. Ainda não convencida, mas de volta assim mesmo.

(...) Bloguinho, aqui me tens de regresso (...)

Falar o quê?
Contar o quê?
Inventar o quê?
Só quero que tenha graça
Só quero um pouco de riso
Ficar longe de desgraça
Que essa tem de monte na mente
Mais ou menos como a mania
De escrever todo dia
Realidades abstratas
Tantinho assim de vida
Bocados de lembranças
E viva aos novos amigos!
E viva aos velhos inimigos!
E viva a quem quer vida!
Eu me basto com o riso...

É, ainda não me convenci mesmo. Mas amanhã volto, nem que seja pra dizer que ainda não deu.



sexta-feira, 13 de março de 2009

Amendoinômana

Comecei o dia, hoje, falando de amendoim. Talvez porque eu tenha terminado meu dia, ontem, comendo amendoim. Besteira, eu falei de amendoim hoje e comi amendoim ontem à noite somente por um motivo: eu sou viciada em amendoim. É um vício complicado: ninguém acredita nele. Nem médico - que é a espécie viva que mais tem fé nas histórias das pessoas (ou que finge).
Descobri que não sou a única. Era angustiante ser a única a ter um vício no planeta. A sociedade perdoa os vícios permitidos por lei e condena as maravilhas proibidas por lei, mas ninguém fica imune ao assunto. Aí vem você com outro vício diferente, e o preconceito é feroz. "Isso não existe". "É carência!". "Basta você controlar sua gula".
Gula é o carai. Sou é viciada. Dependente, orgânica e inorganicamente químico-dependente. A quem me fala em ter "força de vontade para superar a compulsão" eu sugiro que estude todos os sintomas de abstinência, quando não tenho o meu produto torrado e salgado à mão. E quando estou viajando, então? É certo que, em viagens, tenho na bolsa dinheiro, documentos, pelo menos uma caneta e uma folha de papel, meu MP4 e, claro, um pacote de amendoim. Pacote de verdade, não aqueles de 40g. É coisa de 120 pra cima. Mas calma, que isso não é todo dia.
Único problema detectado: amendoim engorda pra caramba. No mais, é muito mais barato que qualquer outro vício que eu conheça (só de ouvir falar, claro). É sociável, gostoso, não causa câncer (pelo menos que se saiba), mata a fome, etc. E a melhor das vantagens: combina perfeitamente com cerveja.
Podem me criticar, vou continuar com meu amendoim. E agora, então, que descobri que não sou única no mundo - um amigo do Rio também se confessou viciado -, sinto-me muito melhor de me assumir tal qual sou e gosto. Aliás, esse meu amigo também fez a homenagem ao amendoim no seu blog, O Comentarista.
Chocolate? Gosto também, mas não chega nem aos pés do amendoim. E não combina com cerveja.

quarta-feira, 4 de março de 2009

O Poder da Natureza


Sou uma mulher de pouca fé. Tão pouca que só estou admitindo hoje, depois de nove anos e quatro meses de análise, sem contar com todas as terapias alternativas pelas quais já passei e deixei meu rastro – vulgo dinheiro.
Acabo de passar por uma crise de refluxo gástrico. Como já tive esse troço há uns anos, assim que o primeiro sintoma apareceu, fiquei alerta. A cura para males estomacais é relativamente fácil, basta você deixar de comer tudo o que é bom e reduzir seu consumo de líquido a água pura. O problema é que eu tenho pouca fé, mas me sobra teimosia. E tenho uma dificuldade imensa de abrir mão de qualquer prazer – ou seja, tenho que aprender a conviver com males estomacais para o resto da vida, igual a um paciente com diabetes ou um corno rico e apaixonado.
Bem, cortei os alimentos que me faziam mal e não me eram essenciais: coca-cola (eu substituí por guaraná, já que o médico me proibiu de tomar coca-cola, mas não falou nada sobre outros refrigerantes), leite (sacrifício zero neste caso). Tem mais? Peraí... hum...ah, sim, deixei de tomar vinho. Comida eu não abri mão de nada, porque minha dieta é super-tranquila, desde que eu não esteja com uma cerveja à frente.
De cerveja eu dei um tempo. Mas foi, para ser sincera, um tempo curtinho. Aliás, muito curto. Não aperta que eu confesso: de segunda a quinta eu evitava cerveja. Pronto. Nos outros dias, dependia dos sintomas: se tivessem fortes, eu jogava minha viola no saco e ia dormir. Se tivessem fracos, eu arriscava até que ficassem fortes. Se não tivesse sintoma algum, aí tava liberado.
Senti que meu tratamento, administrado por mim mesma a esta pessoa que vos escreve, não estava progredindo satisfatoriamente. Não queria ir a um gastro para não ouvir o que ele iria me dizer (ou seja, o que ele iria me proibir). Então uma amiga me aconselhou um homeopata. Adorei! Eu já tenho alguma experiência com chás e ervas, então achei que, de repente, podia dar certo.
Ele me passou um tal de Nux Vomica que revirou minha vida de cabeça pra baixo. Eram cinco gotinhas antes de dormir, e passava a noite toda delirando, acordada e tossindo, chorando, “enrouquecendo” e enlouquecendo. Achei a experiência transcendental, e, embora não tivesse melhorando em nada meu refluxo, mantive a medicação.
Ah sim: perdi a paciência com o refluxo, comprei omeprazol, tomei por uma semana, e agora estou boazinha da silva. Depois que passaram todos os sintomas, procurei um gastro e fiz todos os exames possíveis, para constatar que tava tudo em ordem no meu organismo.
Beleza.
E ainda tenho quase meio vidrinho de Nux Vomica.

terça-feira, 3 de março de 2009

Estupidez deveria ter limite

A Falha de São Paulo apronta mais uma.
Chamar a ditadura de “ditabranda”, só mesmo para um jornal que tem tantas peculiaridades com este período violento e covarde da história brasileira. A brandura deve estar nos lucros exorbitantes de um “cala a boca” suposto da censura da época – Roberto Marinho que o diga. A “sutileza” da ditadura, para os Frias e seus cúmplices (fardados ou não), sempre esteve religiosamente depositada em contas bancárias.
Ah, e cínicos e mentirosos são os que contestam o termo “ditabranda”, e não os que o fincam vergonhosamente num editorial de um dos jornais mais influentes do país. Imparcialidade? Hahaha... Informações fidedignas? Hahaha... Sei.
A todo mundo que concorda com o termo “ditabranda”, fica aqui minha sincera torcida para que aprenda, na própria carne, a respeitar a dor e a história de quem foi estupidamente preso, torturado, seviciado, estuprada, e também de quem perdeu marido, mulher, mãe, pai, filhos, irmãos e amigos. Torço, de coração, para que aprenda com a própria dor a diferença entre “ditadura” e “ditabranda”.
Para Frias e seus cangaceiros literatos, ditadura no cu dos outros é refresco.
Eu faço o que posso: não compro e nem leio a Falha. Afinal, como disse Raulzito, “mentir sozinho eu sou capaz”.

Saiba mais sobre o assunto:
http://www.cartacapital.com.br/app/materia.jsp?a=2&a2=8&i=3462

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Mais uma dose

Cuidava de si para os outros
Olhava-se através de olhos estranhos
E extremamente críticos
Quando não sedutores.
Usava o que não gostava
Paria quando não queria
Chorava escondido
Ressentia-se de tudo.
Adotara a religião da mãe
O time querido do pai
As manias do irmão
A tristeza do marido
O futuro distanciamento dos filhos
A ilusão da telinha
O sorriso estudado da atriz
A gula do faquir.
Era fraca e fingia.
Ela própria se condenava
E se envergonhava
De ser quem era.
Escondia de si mesma
A sua vida que nunca foi sua.
Preferia ter donos,
Regras, impedimentos.
Igual a tantas,
Igual a muitas.
Um vício sem cura:
A mesmice de sempre.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Cultura Fluoxetina


Propôs um brinde à recente tristeza, mas foi negado: queriam brindar à alegria, à vida dos que ali estavam, à sorte da união. Queriam animá-lo, queriam fazê-lo esquecer. Brindaram. O seu copo esvaziou não em nome da farsa burlesca. Não: a mentira precisaria de refinamento. Mentiu para si que aquele ressentimento abrandaria no outro dia. Mentira diante do espelho nítido e bebera a um esquecimento que não viria a conhecer. Negou a verdade e sorveu o líquido todo, em dose única.
Pensou que esses anos não permitem tristeza. Lembrou de seu último luto, do quanto gostaria de vivê-lo com toda a intensidade possível e, no entanto, como se rendera aos encantos desgraçadamente feios e vazios da nova covardia social que dita: 'os que sentem são fracos. Não sinta!'. Foi ao trabalho quando queria enterrar-se. Tomou seu banho sonhando com um afogamento. Até amou a sua mulher naquele tempo, embora com o surreal desejo de escoar-se junto ao esperma sofridamente jorrado. E sumir, de uma vez por todas.
O uísque barato queimou-lhe a garganta e acomodou-se desajeitadamente em seu estômago revirado de amargas lembranças. Pensou em vomitar, mas isso seria bom demais para acontecer com ele. Sabia - melhor: precisava! - sofrer. Sofreria com a ressaca que, com sorte, seria tão grande que abafaria sua real dor. Sofreria uma diarréia daquelas que banham o sujeito de suor e estoura as varizes. Conseguiria mascarar sua perda tatuando-a em seu próprio corpo.
Sofreria abundantemente, como as grandes perdas exigem e a sociedade condena.
Propôs um outro brinde: à ignorância! E, desta vez, todos brindaram com ele.
O líquido vagabundo feriu-lhe novamente a garganta e descansou mais uma vez em seu estômago, a cada minuto mais revirado.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Desabafo

A Tirana chega sem aviso
Ceifando futuros sonhados
Até de quem sequer pôde,
Uma única vez, abrir os olhos,
Berrar de fome ou mamar o peito.
E em nós fica essa dor
Pelo que podia ter sido
E jamais será.
Nunca mais.
O futuro do pretérito é o que resta,
Quando desejávamos todas as outras formas verbais
De tempo. Mais tempo. Muito mais.
Sobra a inveja de quem tem fé;
Sobra a desesperança no destino.
Ficam os móveis sem uso,
As roupinhas sem corpo
Os olhos com lágrimas
E a vontade de gritar:
Vai tomar no cu, mundo escroto.
Vai tomar no cu.

Logro


Costura o fino fio de sua vida
Guiando-se pela necessidade
Tendo por ambição o conforto
De poder olhar para trás e sorrir;
Em cada entrelaçamento de fios
Uma história vivida
Nem sempre tão boa,
Nem sempre dorida
Mas sempre sua:
Concebida e extenuada
A seu bel-prazer
- Assim ele acredita.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Para Joana, João, Débora, Artur, Juliana, Paulo, Edu, Natascha, Daniel...

Um pedido aos amigos: por favor, não me instiguem mais a ir ao carnaval recifense. Estou retorcendo o útero, sabotando a aorta, desautorizando o cérebro, num esforço hercúleo para me manter longe da Grande Festa. Devo ser abduzida para Varginha mas, se ainda assim eu achar que tem algum risco de cair na folia (Marte tem carnaval???), decidi que correrei para Curitiba, porque lá é certíssimo de não ter vestígio de carnaval.
O problema não é o carnaval em si, mas sua condição sine qua non: estou proibida de beber. Imagine a cena estapafúrdia: eu na Sé, na barraca do índio, pedindo um suco de laranja sem gelo? Não dá.
É isso, amigos. A pura verdade. A terrível verdade. Nada de álcool por um bom tempo. Nem álcool nem bebida gasosa. E nem cafeína também. Resquício da megafarra do aniversário: refluxo gástrico é o nome do bicho de sete cabeças.
Se fosse o refluxo por si só, dane-se. A merda é que não estou conseguindo dormir uma noite inteira desde que completei 38 anos. Laringe, faringe, esôfago, tudo transformado num único ducto de fogo. Acordar sufocada no meio da noite, amanhecer rouca. O inferno em vida - e olha que sou atéia.
Nada de álcool. Ou quase nada, que ninguém é de ferro e minha determinação no cumprimento de medidas drásticas adotadas por médicos não é lá grande coisa. Diminuí bastante o consumo. Em quatro dias no Rio de Janeiro, só consumi uma garrafa de cerveja (e tava quente, a miserável!) no sábado à noite e mais duas long neck (geladas, ufa!) no almoço do domingo. Segunda e terça, nada de álcool ou coca (-cola). Ontem à noite eu até tentei evitar, mas a ocasião não permitiu frescuras: TIVE que festejar o novo emprego da minha prima. Só três garrafas e, infelizmente, sozinha, já que o restante do grupo preferiu drinks. A vida é dura, camaradas.
De modo que é isso: fazendo das tripas coração e do ormeprazol minha salvação, não vou brincar carnaval neste ano e vou continuar neste esforço inumano contra álcool, coca (-cola), café. Se na quinta-feira pós-carnaval eu não der sinal de vida, é porque eu consegui cumprir todas as recomendações médicas.
Mas acho improvável. Absolutamente improvável.
Em 2010 eu me vingo.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Casas José Araújo


Essa é para pernambucanos saudosos: quem lembra das propagandas das Casas José Araújo?
Encontrei boa parte delas no Youtube. Mas a "Praia" eu fiz questão de linkar aqui (mais ou menos, que eu não sei fazer esse troço direito):
Escutem. Pernambucanos vão sorrir de canto a canto. Não-pernambucanos e desacostumados com nosso linguajar, vão sofrer. Como não sou tão ruim, aí vai a letra da música:

Propaganda das Casas José Araújo
"Praia"
Na praia acontece coisa de lascar
Um magrelo comprido querendo jogar
Com um gordo metido, redondo e baixinho
Uma arenga [discussão] danada pru´mode [por causa de] um joguinho
A Maria Nicota fazia marmota [tirava onda, mangava, fazia troça]
Pra Zefa vermelha [muito queimada do sol] que tava na areia
De saia de chita, toalha bonita
E a outra vestida de tanga comprida
Se come de tudo, se bebe demais,
É carro parado na frente e de trás
Barulho, zoada, sorvete, café
E água de côco pra quem bem quiser
É nego com nega, é preto com branca
Morena e mulato queimando as pelancas [a pele]
Turista decente, andando elegante
Rapaz enxerido, metido a galante
O velho deitado na beira da praia
Olhando as meninas e as moças de saia
Estava bem simples, espiando as sereias
Chegou sua velha, puxou-lhe as orelhas
Essas coisas acontecem na beira do mar
Num domingo de praia com o sol a brilhar
Prestando atenção você vai notar
Muito mais coisas boas de se espiar.

A tal da torta


Ontem eu me senti desafiada a falar de torta de limão, como assunto trivial comumente abordado em blogs femininos. Acontece que meus poucos dotes culinários estão contra essa missão: hoje pela manhã, quase como um castigo antecipado ou uma boa desculpa para não cumprir a obrigação, praticamente fiquei sem o dedo indicador da mão esquerda só porque inventei de fazer uma torradinha básica. Pelo menos, dessa vez, não me queimei ao tirar as torradas do forno (sim, apesar da perda de uns 17 litros de sangue, mantive minha determinação de fazer as tais torradas. E as comi com um prazer incomum). Ninguém me avisou que a serra de pão era nova, e eu estava acostumada com a outra, cega.
Mas o acidente não significa que eu tenha pouca intimidade com a cozinha. De modo algum. Tenho muita intimidade, e a balança de qualquer farmácia atesta isso. Mamãe também pode atestar.
Inclusive (olha aí os 360º) torta de limão é uma das minhas especialidades. Nasci pra fazer torta de limão. Aprecio mais fazê-la desaparecer - sou rápida, quando necessário.
Lembro de uma vez que só tinha a última fatia na geladeira, e, por uma questão moral, meu irmão mais velho teria direito a ela, já que estava adoentado. Frescurinha familiar, claro. E como não sou chegada a frescura, sou questionadora dos costumes e vivo desafiando a ordem social das coisas, aproveitei um momento de descuido materno e... zapt!, devorei a herança do primogênito asmático. Com incrível rapidez. Possivelmente, eu entraria no Guinness World Records. O medo de ser flagrada faz milagres. Foi tão rápido que penso, hoje, que sequer senti o delicioso gosto da mistura doce-azedo.
E tem a torta da mãe da Adriana, a melhor que já comi na vida (só confesso isso aqui porque sei que minha mãe não lê o blog). Já virou tradição: é meu presente de aniversário. Todo 29/01 tem torta de limão na minha casa, caso contrário eu não faço aniversário. Portanto, por este ângulo, não é mentira se eu sair espalhando por aí que sou "de menor" - só conheço a mãe de Adriana há três anos.
Gugu-dadá.
O que mais gosto na torta de limão? A torta. O sabor do doce condensado ao azedo do limão. A textura do creme. A massa de biscoito quebrando o doce. A camada de "suspiro" deixando o creme ainda mais leve. Tudo.
Se não fosse esse dedo cortado, ia fazer uma agorinha. Como assim, não atrapalha em nada?? Claro que atrapalha. E eu lá sou mulher de fazer torta de limão sem lamber a vasilha do creme? E como se lambe a vasilha do creme sem o indicador?
No entanto... Nada me impede de ir na padaria da frente comprar uma fatia.
Dá licença.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Facetas do Rio


Homem falando sozinho enquanto entra em seu carro, por volta das 18h, saindo da praia de Copacabana, bêbado como peru em véspera de natal:
- É isso aê, mermão, isso é Copa... Dá de tudo...

Cara comentando com dois outros colegas no calçadão, enquanto duas mulheres passam:
- Pô, isso é o Rio... Passar o dia na praia, jogar bola com os amigos, tomar umas geladas e agora (comendo a passante com os olhos, inclusive) ir pra casa, tomar um banho e fazer um amorzinho delicioso com essa nêga gostosa...

Discussão entre dois estranhos em plena Rio Branco às 14h da sexta:
- Pô, caralho, isso é lugar de mijar, seu escroto?
- É não, é? E onde fica esse lugar? Na tua casa, malandro? Tu tem nada com isso, mané?

Moça ao celular, dentro do ônibus:
- É? Pô, foi? Que cara-de-pau... E aí, tu fez? Fez!? Porra, tu tá louca, tu fez o que esse banana pediu? Caralho... Bom, agora tá feito. Tô entrando no túnel, depois te ligo pra saber como ficou a treta. Mas olha, e o show hoje da Maria Rita, a gente compra o ingresso na hora mesmo? Alô? Alô? Caiu. (A moça olha para o telefone, já desligado, e diz: - Pô, bateu na minha cara! - possivelmente esquecida que ela estava no túnel).

Duas amigas conversando, caminhando em direção à praia:
- O Rio é bacana, né? Lindão... não tem lugar mais bonito do que esse não. Ei, vamos atravessar para a outra calçada que aí na frente vem uns moleques sujos e podem roubar a gente. A merda é que aqui tem muita violência. Mas tem em todo lugar. E a praia, então? Lugar democrático, o pobre curte, o rico curte... se bem que eu não costumo vir à praia não. Só tem gente feia. E eu não curto areia, saca?

Três senhoras na saída do Shopping conversam. Uma sugere que peguem o ônibus gratuito que para bem na porta do shopping. Resposta de uma delas, por sinal a mais maquiada das três:
- Tá louca? Pegar ônibus na porta do shopping? Quer queimar meu filme? Lógico que não. A gente pega um taxi até a Barata Ribeiro, de lá a gente pega o ônibus.
__________________________
Acho o Rio incrível, único. Gosto particularmente de ver como as pessoas se gostam e gostam de sua cidade. Gosto do movimento a toda hora. Gosto da efervescência, e até do caos generalizado (não viveria dentro dele, mas uma vez ou outra é interessante).
Ressalvo: só conheço os zona sul do Rio, principalmente Copacabana. Sei que "pra cima" a coisa é diferente.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Toleima


Em meu baluarte lacustre
não encontrei o sonhado mistral,
apenas a febre palustre
designada, não por um douto,
e sim pelo mero cantoneiro
- revelado um grande patranheiro,
insuflador de terrores
em sujeitos parvos, atoleimados,
como esta que vos fala.
Ao longe reconheci a elegia
lúgubre, renitente, insanável,
lembrando-me o regresso ao estado inicial
e causando-me volvos incontínuos
- violentos prenúncios da terçã
que o fadário me cominou
como remate de uma existência ímpia
encalacrada de piáculos
sem páculos ou possessores.
Deixo, assim, de perpetuar-me
acantoada pelas quelhas
intermediando justeza e assombramentos,
abjurando o avelhentado
expiando o incipiente
opondo-me a reverências
(veladas ou nítidas).
Hipocritamente mortificada,
revivesço faustosamente.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Deixei o msn ligado e...


João Ricardo diz:
te amo, amo, amo
João Ricardo diz:
PARABÉNS !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
João Ricardo diz:
Maninha, penso, penso, penso, (eita, começou a feder... rs - se com isso eu já tirei um sorriso teu, já valeu) pois é Maninha, ultimamente ando tão ocupado, e você sabe disso. Sabes também o quanto eu amo ficar conversando contigo, e nem pra isso eu estou tendo tempo... sei que as nossas conversas têm sido cada vez mais rápidas e objetivas, às vezes só dá tempo de dizer que te amo ...
João Ricardo diz:
...Maninha, nem preciso dizer o quanto eu te amo, o quanto és importante, o quanto eu desejo felicidade e sempre mais e mais conquistas, realizações, farras (não pode faltar né? ), saúde, (porra só lembrei da saúde depois da farra, sem comentários...), desejo tudo de maravilhoso, pois você merece. Continue sendo essa pessoa interessantíssima que você é...
João Ricardo diz:
Como eu queria estar ao teu lado agora te enchendo de beijos e abraços ...., isso eu vou ficar te devendo e vou fazer questão de pagar !!!!
Para resumir um pouco, ou melhor, quase tudo..., parabéns!!!!!
FELIZ ANIVERSÁRIO !!!!
Nós te amamos !!!
João Ricardo diz:
Maninha, vou fazer de tudo pra te ligar hj
João Ricardo diz:
te amo muito

_____________

Eu que amo esse moleque.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Aluguel

Semana passada estive em Alfenas, cidade do sul de Minas onde morei por um ano e meio. Uma grande amiga está se mudando para lá, e pediu que eu a ajudasse a alugar uma casa legal por lá. A tarefa é desagradável sempre: ir em imobiliária, pegar chaves, deixar documentos, andar a cidade toda abrindo portas, percorrendo cômodos, devolvendo chaves, pegando outras... Mas em Minas isso é muito pior ainda.
É que em Minas o povo gosta de conversar. E conversa, conversa, conta a vida de sua família e dos vizinhos e das famílias tradicionais. Pergunta de tudo, também. Objetividade é um conceito pra lá de subjetivo por essas bandas. É um jeitinho que tanto pode ser cativante quanto cansativo. Agora, imagine isso quando você precisa percorrer toda uma cidade em busca de um imóvel para alugar...
1ª imobiliária visitada. Na entrada, um painel com umas 18 fichas de imóveis para alugar. Olho o quadro e constato que há apenas duas hipóteses interessantes, o resto era inviável, com localização ruim. Um corretor se aproxima.
- Pois não?
- Queremos alugar uma casa na região do centro, de preferência perto da Unifal.
- Hum... tá ruim... tá difícil... A gente tá quase sem casa. Serve apartamento?
- Pode ser. Mas a preferência é por casa. Essas duas aqui, a gente gostaria de ver. É possível.
- Olha, vocês até podem ir, mas eu vou avisando logo: as casas estão ruins. Em péssimas condições. Tem que fazer reforma.
- Não, pra fazer reforma a gente não quer. Temos pressa, a mudança tem que ser rápida.
- Hum... sei... Então é melhor nem ir lá. Não serve apartamento?
- Serve, já que não tem opção mesmo... Quais apartamentos o senhor tem disponível?
- Tem esses dois aqui no centro.
- A localização é ótima. Podemos visitar?
- Claro. Peraí que eu vou buscar as chaves.
Em outra sala, o corretor que nos atendia covnersa com um colega:
- Você viu a chave dos apartamentos do centro?
- Hum... acho que estão na segunda gaveta.
- Não estão. Será que estão na primeira?
- Pode ser, olha aí.
- Não encontrei.
- Vê na terceira.
- Também não.
- No quadro de chaves?
- É pode ser. Vou ver. Não, as chaves não estão aqui.
- Então alguém deve estar visitando.
-É, deve ser.
O corretor volta e fala conosco:
- As chaves não estão aqui. Acho que alguém pegou para visitar. Vocês podem voltar lá para o final da tarde? Talvez, se alguém pegou, já possa ter devolvido nesse horário.
- Sem chance, amigo. Valeu e boa sorte.

Saímos rindo muito, ainda de bom humor. Isso, evidentemente, evaporou depois de visitarmos a segunda, a terceira, a quarta... e as cenas se repetirem, com mais ou menos fidelidade. Na hora do almoço, paramos num restaurante conhecido meu. Lá, perguntei se a dona não conhecia alguém que tivesse imóvel para alugar. Não se passou nem um minuto e ela ressurge na minha frente com um velhinho simpático.
- Boa tarde. Vocês estão procurando casa?
- Sim, sim. O senhor tem alguma para alugar?
- Eu tenho, eu tenho. Tenho três casas, sabe? Tudo no aluguel. Uma fica bem aqui, perto do Itaú, você sabe onde é o Itaú? Bem na rua do Itaú. Quer dizer, não é bem na rua, mas é como se fosse. Você desce o Itaú, anda duas quadras, vira assim, sobe a primeira à direita, aí vai encontrar a padaria de seu João, sabe onde é? Aí depois que passar a padaria você vai ver minha casa, uma branca com muro alto e portão verde. Quer dizer, acho que aquela cor não é verde não, acho que é cinza. Não, não, é verde mesmo. Essa é uma casa muito boa, grande. O quarto de casal - a senhora é casada? - é bem grande, tem um banheiro separado. E tem quintal, um quintal grande, dá até pra criar cachorro. A casa é muito boa. Mas essa já tá alugada. Tem mais duas, uma que fica...
- Mas as outras duas também estão alugadas?
- Estão, estão, tá tudo alugada. Minha mulher também tem duas casas. Uma delas fica no bairro Morada do Sol, a outra já é mais perto do centro, pertinho da Unifal. Mas essa casa não é muito boa não, porque tem muito estudante que passa por lá fazendo barulho a qualquer hora do dia. Sabe como são os estudantes, né? Um dia mesmo, uns passaram por mim gritando, fazendo uma zoada danada, era véspera de um feriado. Qual era o feriado mesmo? Acho que era 7 de Setembro. Caiu numa quinta, o 7 de Setembro?
- Não sei. Mas a casa me interessa. Qual a rua?
- É aquela perto da Unifal... mas não presta pra senhora, não. Os quartos não são grandes, e só tem dois quartos. Além do mais, está alugada.
- Ah, está alugada?
- Sim, está. Minha filha também tem três imóveis. Ela é psicóloga e se formou também em Direito e em Administração de Empresas. Casou com um rapaz daqui, que fez odontologia na federal. Agora eles moram em São Paulo. Ela já tem duas filhinhas, cada uma mais linda que a outra. Compraram uma casona grande em São Paulo, bairro chique, muito bom mesmo. E ela tem ainda três imóveis aqui, que ela aluga. Normalmente ela aluga para estudantes, porque aqui em Alfenas tem a federal e muitos estudantes vêm do Brasil todo pra cá, e aí...
- Mas os imóveis dela estão para alugar?
- Não, estão todos alugados.
- E o senhor conhece alguma pessoa que está com o imóvel para alugar?
- Não, isso tá dífícil. Porque, como eu ia dizendo, aqui tem muito estudante, e aí alugam os imóveis todos e...

Guenta. Isso foi o dia todo. No final, já em desespero, conseguimos miraculosamente encontrar uma pessoa que tinha não um apartamento, mas um prédio inteiro para locação. Enquanto conversávamos com ele a família que estava alugando o último ap disponível do prédio desistiu do contrato. Pegamos na hora, por muita sorte.

É, meu amigo... parodiando o ditado famoso, torresmo é bom mas não é mole.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

É a estrada!


Cara, amanheci mais velha. Não, ainda não é meu aniversário, ainda tenho alguns dias de idade atual. Ainda assim, estou mais velha. Irreversivelmente. Inacreditavelmente.
Não foi uma ruga no rosto quem anunciou esse triste fim de Policarpo Quaresma. Não foi a preguiça de levantar, hábito que venho adquirindo aos poucos. Não sei que vento trouxe essa certeza: o fato é que, antes mesmo de abrir os olhos nesta manhã, eu SABIA que estava mais velha.
O que sinto? Sei lá, nem tenho percebido tanta mudança assim. Ainda corro no meio da rua, ainda tomo banho de chuva (só quando é chuva grossa), ainda subo em árvores e planto bananeira debaixo d´água. Ainda danço pra caramba, ainda bebo pra caramba, ainda sorrio mil vezes mais que choro. Ainda nem me conscientizei de verdade que eu tenho obrigações na vida! Tanta coisa a descobrir, tanta coisa para mudar, tanta coisa para deixar de fazer antes de envelhecer.... E agora? Tô mais velha, cara, e tenho que me convencer racionalmente disso, ainda por cima!
Fiquei uns 10 minutos parada na cama, olhar vazio para o teto, só assistindo o filme que passava na memória. Deu saudades. Senti a falta de meu pai. Senti inveja de minha infância passada com meus primos - toneladas deles. Rapida e violentamente, passeei por todas as cidades que já tive o prazer de morar. Aí, exatamente nesta parte, encanei: caralho, dizem que quem tá pra morrer assiste a esse filminho particularíssimo. Será que...? Caralho... Pô, mas já????
Levantei em um salto. Tá, tô mesmo ficando mais velha, porém uma coroa inteiraça, do tipo que encosta a cabeça no joelho sem ter que implorar misericórdia aos céus. Herança de meu tempo de bailarina. Ainda dá pra acordar saltando da cama. Olhei para o guarda-roupa e vi que tinha pouquíssima roupa que pudesse me identificar com minha mais recém-descoberta idade. Cara, mas eu também não preciso demonstrar esse peso que passei a sentir tão subitamente, né? Visto um vestidinho vermelho, meio curto. Olho no espelho, olho de novo, de novo e brado, vencida: merda, você tá uma velha ridícula com essas pernas à mostra nesse vestidinho adolescente. Troquei. Escolhi uma calça social preta com blusa preta e sandália de salto alto. É... antes ser chamada de urubu que ser recebida por risinhos de loiras no meio da rua. Foda.
Hora do banho. Aí, eu já entro no banheiro encanada com minha encanação. Porra, que idéia é essa de estar velha? Tenho uma vida social bem ativa, excelentes amigos, bons parceiros, contas em dia, grana sempre disponível para os pequenos e indispensáveis prazeres. Parei de fumar (hum... talvez seja tempo de reverter isso). Enfim... encanei com a encanação.
O banho é sempre um demorado processo. Tão demorado, e frio por opção, que conseguiu me chacoalhar e me fez desencanar de uma vez por todas. Não vesti o uniforme de viúva, dispensei o vestidinho vermelho (deixei pra night), coloquei uma calça jeans descolada e uma blusinha de malha confortável e com um decote interessante. Nos pés, uma sapatilha com saltinho. Nem oito, nem oitenta.
Enquanto me trocava, pensei na besteira que tinha me atacado sem razão alguma. Ri. Ri um bocado. Contei para os amigos, e rimos todos juntos, tomando café da manhã. Tiraram muita onda da minha cara, mas tudo bem, esses são meus amigos. Vamos todos trabalhar. Saio na frente de casa para abrir o portão. Distraída, bati de leve no braço de uma estudante que passava pela calçada. Tinha uns 15 anos, a miserável.
- Desculpa, foi mal. Eu não te vi passando...
- Tudo bem, tia, fica tranquila.
- A puta que te pariu tá boa? A rapariga da tua tia já largou da zona? E você, tá indo tirar o plantão dela, sua filha de uma que rincha? Mal-educada...

Moral da história: velha é foda.